Acordes de um sinfonia

“A Missão, depois de ter percorrido dez paróquias (como se fosse Jesus de Nazaré que passasse agora através de terras bairradinas) terminou no passado dia 21 de Fevereiro, na freguesia de Sangalhos – mais propriamente na Fogueira. Nunca, como desta vez, o nome da terra assumiu um valor tão simbólico. Não só ali, mas por toda a parte, a Missão foi uma fogueira que o Espírito de Deus ateou” – confessa agradecido o Bispo de Aveiro, em Março de 1965.

E em Setembro seguinte, reconhecendo que “caminhamos cada vez mais para um tempo em que o homem poderá apenas contar com as suas forças interiores” convoca, de novo, toda a Igreja diocesana para a Missão Regional.

D. Manuel constata um facto e proclama uma certeza. Tudo o que serve de suporte externo às convicções religiosas vai perdendo força ou mesmo desaparecendo. O Espírito de Deus quer acender novas luzes por meio da Igreja e das suas comunidades. Esta leitura da realidade constitui uma constante do seu ministério.

Dotado de grande capacidade de observação e de discernimento, com elevada formação histórica e teológica, inserido profundamente na dinâmica do Vaticano II (que encerra em Dezembro de 1965), determinado a evangelizar as terras de Aveiro, prosseguindo esforços anteriores e ousando empreender outros novos, o Bispo Almeida Trindade opta por levar à prática não apenas os ricos ensinamentos, mas a experiência de comunhão, de diálogo e de participação intensamente vivido na assembleia conciliar. Esta opção perpassa em toda a sua actuação e provoca um novo dinamismo nas mais diversas áreas da vida pastoral.

A Diocese continua em missão e vai moldando o seu rosto e estruturando a sua organização, a partir deste impulso renovador, progressivamente assimilado pelo presbitério, pelas comunidades religiosas e por numerosos leigos.

O propósito de D. Manuel tem objectivos claros e mobilizadores: Revigorar as forças interiores dos nossos conterrâneos, robustecer a fé dos cristãos, evangelizar a religiosidade popular e as realidades sociais, dotar a Igreja de padres suficientes e qualificados, preparar leigos para assumirem a sua missão no mundo, remodelar ou construir templos e outros espaços de celebração e oração, suscitar uma nova psicologia pastoral, renovar ou criar serviços de atendimento aos mais necessitados, sobretudo às pessoas doentes e aos espoliados da sua dignidade e de bens.

A partir de 1976, o Bispo de Aveiro conta com a ajuda preciosa de D. António dos Santos, como Bispo Auxiliar; e desde 1981 tem a seu lado D. António Marcelino como Bispo Coadjutor; com ambos vive uma admirável comunhão apostólica e intensifica a obra pastoral em curso.

As iniciativas levadas a cabo, ora em programas de curta duração, ora em planos trienais, visam sempre caminhar em ordem a alcançar os objectivos assinalados. Apontam-se apenas três que parecem historicamente mais importantes.

A Missão Regional é um programa de grande alcance pastoral, iniciado em 1958 por D. Domingos de Apresentação Fernandes. Inspirada na Missão de Milão, levada a efeito pelo Cardeal Montini, futuro Paulo VI, realiza-se até 1973, com muito poucas interrupções. Percorre a Diocese inteira, em alguns sítios mais do que uma vez. Nela tomam parte activa leigos, adultos e jovens, homens e mulheres, fazendo a sua comunicação e dando o seu testemunho em locais, de preferência fora do templo. Nela intervêm o clero, sobretudo diocesano, pregando normalmente nos espaços litúrgicos e atendendo o povo nas suas necessidades espirituais.

A carta pastoral sobre festas cristãs provoca um impacto salutar na evangelização do povo cristão, especialmente das mordomias e das irmandades. Elaborada, após amplo debate no conselho presbiteral (os conselheiros haviam tratado deste assunto com os colegas e, sempre que possível, com leigos), esta carta constitui um guia seguro e aberto para a formação cristã, sobretudo na compreensão da festa e na necessidade humana da sã alegria convivida entre todos, residentes e forasteiros. Destaca e aprecia a exigente função das comissões, estabelecendo orientações para a sua renovação.

O género epistolar era uma faceta notável do nosso Bispo.

D. Manuel gosta de cultivar este modo de comunicação – à maneira de João Paulo I, o Papa do sorriso, como ficou conhecido. Tem dezenas de cartas de enorme beleza literária e de grande alcance doutrinal.

Os templos paroquiais, enquanto casas da Igreja ou do povo de Deus, constituem uma catequese permanente, feita em público e de forma persuasiva. Da vil degradação em que alguns se encontravam, passa-se à restauração bem conseguida de uns e à construção sólida e harmoniosa de outros. Também aqui o Bispo Almeida Trindade revela uma faceta especial: explica pedagogicamente o que se fez e está à vista, para chegar ao sentido mais pleno, ao invisível, ao mistério plasmado em notáveis obras de arte.

Serve-se para isso de artigos no “Correio do Vouga”, depois compilados em opúsculos, de homilias e de diálogos com o povo aquando das visitas preparatórias da sagração do altar ou bênção do templo. Constituem exemplos de referência obrigatória os templos paroquiais de Santa Joana, de Paradela do Vouga, de Nossa Senhora de Fátima e de Nossa Senhora da Glória (Sé).

Simultaneamente, promove a recuperação e remodelação de espa-ços de formação para leigos, expressando uma convicção que muitas vezes lhe ouvi: O Concílio de Trento criou os seminários para renovar o clero; o Vaticano II precisa de novos espaços para formar leigos. O palacete do Visconde da Luz (onde funciona o Centro de Acção Pastoral), a Casa do Redolho, o Seminário de Calvão, transformado em colégio diocesano, a Casa Diocesana, em Albergaria, o Círculo de Cultura Católica constituem exemplos desta preocupação pastoral. É também no seu tempo que se decide o projecto do CUFC e a sua construção.

A vida e missão de D. Manuel de Almeida Trindade espelham a sua rica personalidade, a sua paixão pela Igreja e a sua entrega incondicional a causas decisivas para a humanidade – o seu diário fala de algumas – o seu amor provado às terras de Aveiro, deixando-nos como sucessor, D. António Marcelino, “o melhor que podia fazer pela Diocese”.