Palavras de D. Manuel

O Bispo e os padres

Que poderá fazer um bispo sem a colaboração dos seus padres? Traz o bispo a cruz ao peito. Uma parte há-de levá-la ele – e espera não abdicar da parte que lhe coube. Mas a outra parte pertence aos seus padres. Eles são, por natureza, os cireneus do seu bispo, É assim que desejo considerá-los. A causa que servimos não é nossa. O êxito da missão dependerá do espírito de união e de disciplina que existir entre nós.

No dia da entrada em Aveiro (23 de Dezembro de 1962)

No Concílio

O Concílio foi, com certeza, uma graça para a Igreja. É preciso ser fiel a essa graça.

In “O Vaticano II no seu tempo”

Bispo de transição?

Se, como bispo, tive que tomar decisões difíceis em relação a alguns padres, receber comissões de moradores, e até ameaças por causa deles, se pude aconselhá-los com maior ou menor sucesso, também procurei rezar. Mas não só. É que fui um bispo de transição. (…) É que, se antes do Concílio, um bispo só saía de casa para ir à Catedral, do seu escritório para receber uma visita combinada com dias de antecedência, hoje, após o Concílio, não é assim [porque passa muito tempo tomando parte em reuniões]. (…) Oxalá o equilíbrio entre os dois extremos venha um dia a encontrar-se. Se tal acontecer, haverá mais tempo para rezar, para ler, para pensar… A vida perderá em movimento, mas ganhará em gravidade, em ponderação, em profundidade.

In Memórias de um Bispo (pág. 208-209)

Casa Comunitária

Se, ao principiar a construção, me aparecesse um homem bom e rico e me dissesse assim: “Fique sossegado; a despesa a fazer com a Casa Diocesana fica à minha conta”, eu ter-lhe-ia respondido: “Obrigado, Amigo!, guarde o seu dinheiro; mas eu prefiro viver desassossegado, ter de estender a mão ou ter de recorrer a empréstimos para saldar honestamente e nos prazos fixados os encargos da Casa Diocesana, a privar a Diocese – toda a Diocese – desta oportunidade de afirmar a sua consciência comunitária”.

Na inauguração da Casa Diocesana, Dezembro de 1985

Cultivar o amor

O amor pode nascer aos poucos no coração de duas pessoas que convivem, ou brotar de maneira espontânea e quase fulminante de um encontro imprevisto. Em ambos os casos – mais talvez no segundo do que no primeiro, porque mais passional – o amor precisa de ser cultivado. Está sujeito às leis da evolução e, portanto, também às crises, às purificações e aos amadurecimentos, por que passa tudo o que é vivo.

In Carta aos Noivos

Última visita pastoral

Prefiro encontrar-me com cada classe, em vez de juntar dezenas de alunos numa escola e dirigir-lhes uma breve alocução. Com grupos pequenos, é possível dialogar: perguntar o nome de cada uma das crianças, explicar-lhes algum ponto de doutrina, pegar no giz e desenhar no quadro uma garatuja que fixe na memória o que se está dizendo, e até fazer perguntas. Por exemplo: “Quem tem televisão em casa?” “Quem vê o Roque Santeiro, a telenovela que está agora a correr na TV?” Todos viam o Roque Santeiro. Aproveitei para dizer que eu, quando tinha tempo, também via a telenovela, mas que, antes de me sentar para ver as imagens do écran, ia buscar uma peneira que tinha pendurada atrás da porta, e que nunca via televisão, designadamente uma telenovela, sem ter a peneira na mão.

Riram-se. Mas uma peneira para quê? Expliquei-lhes: sabem para que serve a peneira? Sabiam: para separar a farinha do farelo: o que não presta (ou presta menos) do que é bom. É com farinha boa que se coze o pão e se fazem os bolos. Perguntei ainda quais as figuras de que gostavam e quais as de que não gostavam. Uns apontaram a “viúva” Porcina; outros, o Roberto; outros o Padre Hipólito. E porque é que gostavam de uns e não gostavam de outros. Dei conta de que aquelas crianças (talvez mais do que muitos adultos) tinham critérios morais para distinguir o que estava certo do que estava errado. Isto era ter a peneira na mão.

Excerto da entrada do diário pessoal, no dia 13 de Janeiro de 1988, a quando da visita pastoral a Tamengos, a última que realizou.

Lágrimas

Há homens que se gabam de nunca terem chorado diante de uma dificuldade; eu não posso dizer o mesmo. Não as dificuldades provenientes de um trabalho demorado e intenso ou de uma dívida que não via como poder saldar; mas as dificuldades provenientes da incompreensão das pessoas, ou da falta de generosidade delas ou até, uma ou outra vez, da sua agressividade. Benditas lágrimas!

Memórias de um Bispo (pág. 192)

Selecção de textos: J.P.F., com base em “Pessoas e Acontecimentos” (Diocese de Aveiro, 1987)

e “Memórias de um Bispo” (Gráfica de Coimbra, 1993).