Da esperança cristã ao compromisso

XXXIII Domingo Comum – Ano C Neste domingo a Palavra leva-nos a reflectir sobre o modo como se desenrola a história da nossa salvação e garante-nos que ela nos conduz aos “novos céus e à nova terra”, onde jorra a felicidade perfeita numa vida definitiva. Esta reflexão há-de desenvolver em nós a esperança cristã e, desta, há-de surgir a coragem para nos comprometer-mos na nossa transformação pessoal e na do mundo, até que o Reino de Deus se instaure em plenitude.

Na primeira leitura, Malaquias, cujo nome significa, o meu mensageiro, anuncia à comunidade de Israel ressequida com as amarguras do Exílio e, agora, descontente diante da grande tarefa da reconstrução do templo e do país, desanimada e tentada a não quer trabalhar, que Deus Jahwéh não abandonou o seu povo. Malaquias conforta-a, incutindo-lhe a esperança de que chegará um grande dia de sol, no qual brilhará a justiça e a salvação. (Neste anúncio vislumbramos uma referência a Jesus Cristo, o verdadeiro Sol da Justiça, por volta do ano 450 antes do seu nas-cimento segundo a carne). A intervenção de Deus, de que fala o profeta, não é relegada para o fim dos tempos, mas acontece a cada instante, no exacto momento em que necessitamos dela e é apelo à nossa colaboração. Estou consciente disto? A minha esperança cristã torna-se compromisso vinte e quatro horas por dia?

O evangelho coloca-nos diante da tarefa da Igreja até à segunda vinda de Jesus. No seu discurso, Jesus usa um tipo de linguagem chamado apocalíptico, isto é, enigmático, em referência às coisas do fim dos tempos. Jesus utiliza aqui uma corrente literária do seu tempo, que, também nos nossos, tem dado ocasião a falsos profetas, que prevêem para muito breve o fim do mundo e até já fixaram, por várias ocasiões, a sua data. Jesus não nega algo de terrífico que irá acontecer e a que nós vamos assistindo: guerras, ataques terroristas homicidas, disseminação das mais perigosas armas biológicas, desentendimento entre os povos e nações, perda de valores… Os sinais de desagregação do mundo velho, a que assistimos, não nos hão-de assustar, pois são apenas indícios de que estamos a nascer para algo de novo, o que não se faz sem dor nem angústia. Os discípulos e discípulas do Senhor sabem que não estão sós nesta tarefa de transformação pessoal e social, pois a solicitude de Deus é constante e amorosa. Em vez do medo que nos acobarda, somos chamados ao compromisso, na esperança de um mundo melhor. É assim que vivo a minha esperança cristã?

A segunda leitura reforça a ideia de que não temos o direito de nos instalarmos ou demitirmos enquanto esperamos a vida definitiva. Paulo, na sua carta aos Tessalonicenses, é mais duro que o profeta Malaquias, e, sem rodeios, “ordena e recomenda, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem”. Porque, muitos irmãos disseminaram a ideia de que o fim do mundo estava iminente e, daí, o desinteresse pelo trabalho. Paulo destemido apresenta-lhes o seu próprio exemplo de incansável trabalhador. Que tipo de cristão e cristã sou eu? Empenho-me activamente na construção da justiça e da fraternidade ou limito-me a “consumir” passivamente o que a comunidade cristã constrói?

XXXIII Domingo Comum

Ml 3,19-20; Sl 98 (97); 2 Ts 3,7-12; Lc 21,5-19