Questões Sociais Nos anos setenta do século passado, o sociólogo Guy Rocher desenvolveu uma noção de ideologia bastande complexa. Baseou-se noutros autores e acrescentou, naturalmente, o seu próprio contributo pessoal (Cfr. «Sociologia Geral», 1º volume, pp.223-233, Editorial Presença, 1971).
Tal noção inclui, além do mais: a justificação de uma determinada situação social; a defesa de valores; e a proposta de orientações para a acção.
À luz desta perspectiva, pode falar-se da formação profissional como ideologia, ou da sua vertente ideológica. Tal vertente vem ao de cima, particularmente, em dois tipos de manifestações: a propaganda e o menosprezo da formação inerente ao trabalho.
A dimensão propagandística dos mentores ideológicos revela-se na sua propalada presunção de que só agora se está a descobrir a importância da formação e de que existem oportunidades para todas as pessoas que a procurem; alegadamente, só não acede à formação quem não está interessado.
O menosprezo da formação inerente ao trabalho revela-se na quase redução dela à frequência dos respectivos cursos ou acções. Revela-se também no pressuposto, bastante em voga, de que o sistema de formação funciona a partir do sistema educativo e dos centros de formação profissional, deixando atrofiada, e entregue a si própria, a capacidade formativa inerente ao trabalho e a todas as actividades humanas.
Esta abordagem ideológica da formação favorece o respectivo aparelho institucional, com suas diferentes organizações públicas e privadas. Esquece que sempre existiu formação nas actividades humanas, sempre existiu motivação para ela e sempre se fizeram grandes sacrifícios para a prossecução de estudos. Mais do que isso: o impulso para a formação-qualificação anda associado, tradicionalmente, às pulsões para a subsistência e para o enriquecimento.
O menosprezo da formação inerente ao trabalho reforça a marginalização da elevada percentagem de trabalhadores e da imensa maioria de micro e pequenas empresas que nunca tiveram acesso à formação formal, reconhecida oficialmente. E assim continuará a acontecer, se as orientações actuais não forem alteradas.
