Notas desvalorizadas ou afinadas?

1. Escrevo o que todos nós sabemos. Este saber quer dizer que estamos informados. Bendita era da informação. Infelizmente, acolho um exemplo cruel, que é a Má Notícia baseada em factos e não opiniões. O tráfico de pessoas, no sentido mais amplo, é o 3º negócio mais rentável do mundo (só perde para as armas e drogas). Isso provoca a fragmentação dos valores familiares, que estão na base da nossa cultura humanista (mesmo quem é discordante por profissão, concorda!). Por serem as famílias atingidas em sua integridade, ganha muita actualidade a “opção pela família”.

Como gerar a fraternidade da Grande Família Humana, habitando a Terra dentro dum Cosmo Harmonioso? Somos feitos da mesma matéria das estrelas. E neste espaço-tempo que nos cabe existir, vamo-nos consumindo uns aos outros (apesar do esforço de reinventarmos o nosso quotidiano). Correndo o risco da generalização apressada, fica a análise: o que as “agências de poder” fazem para que o mundo se divirta (!); deveriam fazer as “agências de serviço” (incluídas a(s) Igreja(s) e as Religiões), em direcção contrária, para que o mundo se converta (!).

2. “Fora dos pobres não há salvação” (de que pobres falamos: 1º Todos nós somos pobres: na biologia e na genética, cultural e religiosamente; sobretudo, ontologicamente… 2º Pobres são todos os ou-tros: sobre os quais exercemos a “denegação”, isto é, o modo de manter secreta para nós a Verdade que não temos a coragem de enfrentar). Por isso é tempo de entender, “fora da Igreja não há salvação” (expressão correcta para o espírito comunitário e não individualista, mas desastrosa para o ecumenismo e para o diálogo inter-religioso,etc). E muito menos aceitar que: “fora do mercado não há salvação” (ex-pressão compreensível para uma globalização solidária, mas imoral diante dum branqueamento do neo-liberalismo,etc.). É mais próximo da Verdade, polifónica mas absoluta, a minha aceitação de suor e sangue: “Fora dos pobres não há salvação” (de que salvação falamos: bem, merece um próximo artigo…não o trocar por “Fora das pessoas não há salvação”). Revelou-me o “Deus da Bíblia (Vida)” e não o “Deus do Va-ticano (Instituição)”. Este reconhecimento é exactamente o contrário da denegação. Ter de vez a fraternidade (e não uma “verdade corporativa” no civil laicista, ou “verdade hipócrita” no religioso espiritualista) à flor da pele e dos olhos!

3. O mundo “dito civilizado” impõe-se aos “Pobres”. Impõe-lhes a paciência, a prudência e o silêncio. Eles, surdos, mudos e invisíveis, respondem. Paciência resignada, não, mas indignada, sim. Paciência que se alimenta do estudo e se faz compromisso de vida. Prudência perante o escândalo da mentira, não, mas arte da transparência para que a verdade possa ser assumida, sim. Prudência que, revestida de bom humor e festa, só se apura na ousadia. Silêncio dos silenciados nos vícios e nas plataformas da diplomacia oficial, não, mas o silêncio meditado dum mea culpa saudável, porque provoca a conversão, sim. Silêncio de quem se escuta a si mesmo nos outros e vai ouvir com o coração o silêncio dos crucificados, para só assim poder agir em consequência. Sobretudo, pobres de paciência, pobres de prudência e pobres de silêncio, pois é Deus que é a sua fonte original e não nós, seus sujeitos de produção e consumo.