A paróquia era como o fontanário da aldeia. Todos lá iam para se abastecerem. Os tempos mudaram e a água vai ter com quem dela precisa. Também a paróquia se transforma para continuar a ser presença amiga e solícita.
Paróquia como fontanário
O magistério da Igreja recorre a várias expressões “plásticas” para traduzir de forma pedagógica a compreensão da paróquia nos vários contextos sócio-culturais. A partir de João XXIII, surge a referência ao fontanário da aldeia, aonde todos acorrem para saciar a sua sede e levar para casa, a seu gosto, o cântaro da reserva. Depois, João Paulo II apresenta-a como a última localização da Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas. Bento XVI dá preferência à imagem de família de famílias.
Todas estas expressões funcionam como recursos pedagógicos, que se complementam uns aos outros, deixando transparecer luzes e sombras na realidade da paróquia envolvida num processo de profunda mutação cultural. Todas manifestam um ponto de convergência: a família, embora esta se vá configurando de múltiplas formas. Todas incidem na proximidade às pessoas e na atenção às suas várias necessidades, a fim de lhes propor o que de melhor a Igreja comporta: a solidariedade universal que se enraíza na comum natureza humana e na fé explícita em Jesus Cristo, o Senhor.
Fontanário em tempo de rede?
No entanto, quem vai hoje ao fontanário buscar a água de que precisa?! A rede de abastecimento domiciliário generalizou-se e abastece cada um na sua própria casa ou em outros locais de encontro, de lazer ou de trabalho. Apesar da escassez que nos ameaça, a água é um bem disponível, pronto a ser usado conforme as necessidades individuais, sem outra regra que não seja a da poupança e de pagar no fim do mês a conta respectiva.
Quem percebe hoje a paróquia como a localização da Igreja entre o povoado ou a casa dos seus filhos e das suas filhas? Serão muitos, se esta localização se referir ao templo de pedras, aos monumentos de cariz religioso, às obras sociais de beneficência. São seguramente bastante menos, se a expressão pretender destacar o estilo de vida dos cristãos dispersos na sociedade, o seu empenhamento na construção da cidadania, a sua intervenção nas causas sociais e culturais, onde se “define” o rumo dos acontecimentos.
Reconfiguração
da identidade da família
Quem se sente “cómodo” ao verificar que a paróquia é família de famílias, quando estas tendem a multiplicar as suas formas de constituição e agregação reconhecidas legalmente? Ou, então, quando não se distingue o alcance predominantemente espiritual da família paroquial e o sentido fundamental da família de sangue? E mesmo nesta, quando não se dá conta do óbvio que é a pluralidade de atitudes religiosas dos seus membros, a diversidade de ritmos e de exigências espirituais das suas práticas?
Este incómodo comporta uma enorme oportunidade de análise do que está a acontecer nestas duas comunidades tão caras à Igreja e tão relacionadas entre si: a paróquia e a família, comunidades que se condicionam e moldam reciprocamente.
A mensagem cristã pretende, desde sempre, dar um sentido novo à família de sangue, alicerçando-a na natureza humana e abrindo-lhe os horizontes contidos na sua vocação original: ser imagem de Deus uno e trino, ser fonte de amor e de comunhão, fazer desabrochar e potenciar o masculino e o feminino, configurados em casal monogâmico e fiel, capacitados para crescer em fecundidade e transmitir responsavelmente a vida.
Jesus de Nazaré repropõe o sonho de Deus sobre a família natural, denuncia os desvios ocorridos na cultura judaica e, nela, em todas as outras culturas e tradições, e anuncia a boa nova de Deus-Pai sempre pronto a ajudar os seus filhos nesta maravilhosa missão de serem testemunhas e construtores do amor fecundo e generoso.
Mas a família sofre, ao longo da história, o impacto de culturas dominantes, o efeito de leis decretadas pelo poder constituído, as vicissitudes dos seus elementos. E surgem muitas configurações do agregado familiar que, presentemente, tendem a aumentar.
Além da família atrás descrita, aparecem famílias monoparentais, devido a separações; famílias refeitas a partir de novos casais; famílias em que os filhos já não convivem com os pais ou estes com aqueles, a não ser esporadicamente. Há quem viva o amor conjugal com o suporte legal do direito civil e há quem prefira uma simples “união de facto” ou meros encontros episódicos.
Começam a surgir pares do mesmo sexo a reclamar o reconhecimento legal da sua situação, a exigir o direito de adopção de crianças, a pretender o nivelamento com o casamento monogâmico e heterossexual. Aparecem também mulheres solteiras que procuram satisfazer o desejo da maternidade recorrendo à inseminação artificial, sem querer saber a identidade do dador ou do progenitor. A figura insubstituível do PAI fica reduzida ao anonimato ou à letra A, pura e simplesmente.
Presença amiga e solícita da Igreja
Esta diversidade pode ampliar-se facilmente, sobretudo atendendo a motivações religiosas, étnicas e culturais. Em todas é possível encontrar quem viva feliz, quem se sinta desconfortável e pretenda mudar para melhor, quem comece a interrogar-se sobre o sentido do amor e da fecundidade, quem descubra e assuma a dimensão social e cristã da conjugalidade.
A paróquia, enquanto povo de Deus em missão, está próxima de todos os que vivem estas situações e sente-se chamada a ser a presença amiga e solícita da Igreja. Os casais cristãos que experienciam a felicidade que lhes advém da vivência do seu amor recebem o “mandato” para realizarem a nobre missão de testemunhar o valor do que vivem, de se fazerem companheiros dos que se encontram em situações diferentes, de estabelecerem uma relação de mútua ajuda, que vá abrindo horizontes à grandeza do amor conjugal.
Sem esta proximidade solícita, a paróquia não realiza a sua missão em relação às pessoas que fazem opções plurais de viver o amor conjugal e, menos ainda, de constituir famílias a seu bel-prazer, tendo em conta o modelo fundamental da família: ser comunidade de amor e de vida, estável-fecundo-feliz, alicerçado no matrimónio heterossexual e monogâmico.
