Tolerância, compreensão e perdão

À Luz da Palavra – 5º Domingo da Quaresma – Ano C A liturgia da palavra deste domingo apresenta-nos a lógica de Deus, que é de tolerância e de compreensão, face aos nossos erros e desvios do seu amor. Ele desafia-nos à superação das nossas escravidões e convida-nos a alcançar a vida nova em Cristo, desde aqui e agora, até à ressurreição final.

Na primeira leitura, o segundo Isaías, recordando como o Deus libertador arrancou o seu povo do Egipto e o conduziu à terra da promessa, convida-nos a olhar para o futuro com esperança, porque o Deus que assim agiu no passado é o mesmo Deus que continua a não tolerar qualquer tipo de opressão e que está do lado dos oprimidos para os libertar. A caminhada do povo de Israel para a libertação, que Deus conduziu, apresenta-se-nos como o protótipo da libertação que Deus nos convida a fazer neste tempo da Quaresma, a qual nos conduzirá à vida nova do Espírito. Qual o ponto de situação face à minha vida cristã neste tempo quaresmal?

Na segunda leitura, Paulo, numa carta afectuosa e terna, escreve aos seus amigos de Filipos. Convida-os a seguirem o seu exemplo, pois, apesar de ter muitos motivos de glória humana, decidiu considerar tudo isso como “lixo” diante do conhecimento de Jesus Cristo, isto é, da sua comunhão de vida e de destino com Ele, a fim de ressuscitar para uma vida nova. O Apóstolo desafia-nos a libertarmo-nos do “lixo” que impede a descoberta do fundamental cristão: a comunhão com Cristo, a identificação com Cristo, princípio da nossa ressurreição. Onde se situa o meu fundamental cristão?

O evangelho apresenta-nos mais uma bela página. Desta vez a do encontro de Jesus com a mulher apanhada em flagrante adultério. Com determinação, Jesus não procura branquear o pecado nem desculpabilizar o comportamento da mulher. Também não aceita pactuar com uma Lei que, em nome de Deus, gera morte. Convida os acusadores a interiorizarem a lógica de Deus, lógica de tolerância e de compreensão, porque afinal todos somos pecadores. Apesar da dureza do seu coração e da refinada má vontade contra Jesus, escribas e fariseus, ao retirarem-se em silêncio, conseguiram entrar em si e confessar-se pecadores, tanto ou mais que aquela mulher que queriam apedrejar. Quem sabe se não estaria também algum deles implicados no adultério com aquela mulher? Quando ela ficou só, Jesus não lhe pergunta se está arrependida, mas apenas a convida e seguir um caminho novo, o da liberdade e da paz. A proposta que Deus nos faz, através de Jesus, não passa pela eliminação dos que erram, mas por um convite à conversão, à libertação de tudo o que os escraviza. Sem excluir ninguém, Jesus promove os desacreditados, dando-lhes dignidade, tornando-os pessoas livres, apontando-lhes o caminho da vida plena, porque a lógica de Deus é de amor e misericórdia, a única que transforma e permite a superação dos limites humanos. É esta lógica de Deus que eu assumo na minha relação com os irmãos e irmãs?

V Domingo da Quaresma – Ano C: Is 43,16-21; Sl 126 (125); Fl 3,8-14; Jo 8,1-11

Deolinda Serralheiro