Da “seca” ao “bué totil”

Educar… hoje Normalmente, o título surge-nos no final do artigo, da crónica, ou da reportagem. Este, porém, impôsse-me, quando andava a congeminar no que iria trazer hoje, aqui, à reflexão.

Da “seca”, reconhece-se a expressão na boca de muita gente, para afirmar que algo não agrada – “Que seca!” Na Escola, ou é porque as aulas são uma “seca” e a matéria dada num ciclo é repetida nos subsequentes; ou é porque os professores são “cotas” ou “semi-cotas” e só implicam com os alunos; ou é porque os alunos (e os professores) têm os seus problemas e não encontram ninguém que os ajude. Ou então é simplesmente um bordão próprio da irreverência de alguns, que não afecta o seu rendimento escolar, ou a sua relação com os outros.

Dos professores implicativos, e ainda bem que os há, porque é preciso implicar, não para gerar conflito, mas para criar muitas vezes atitudes de atenção face ao que é importante na VIDA, muito se poderia dizer. Um exemplo concreto: na sala de aula, são cada vez mais frequentes imprevistos, como os alunos a brincarem com os telemóveis ou os pais a telefonarem, para darem um qualquer recado aos filhos. Mas… será que os pais não sabem o horário dos filhos e têm de interromper as aulas? Sim, também há professores cujos telemóveis tocam na sala de aula, o que os deixa encavacados, espera-se. Quando se chama a atenção de um aluno que brinca com o telemóvel, há quem fique zangado, porque o professor está sempre a implicar com ele! Desde que vi, na semana passada, uma menina de uns seis anos a jogar no telemóvel durante toda a Missa, ao lado da mãe, que nunca lhe chamou a atenção, que nunca lhe tirou o aparelho e que só o arrumou, ela própria, a mãe, quando terminou a Celebração, percebi por que é que alguns alunos ficam admirados quando os professores lhes dizem que não devem brincar com os telemóveis na aula. Com todo o respeito que nos merece a Celebração da Eucaristia, também nas aulas e noutras circunstâncias o uso do telemóvel parece ser um abuso, um absurdo!

Voltando à ideia da “seca”, ela surge metaforicamente, muitas vezes, como expressão de sentimentos mais profundos de falta de confiança em si próprio e, sobretudo, de desinteresse. Compreende-se que ter 12 anos e estar no 5º ano com colegas de dez anos, ou estar no 7º ano, aos 15 anos, com colegas de 12, pode tornar-se uma “seca”. Normalmente, a atitude face ao estudo é de desinteresse, e só com muitas estratégias, que passam pela afectividade e pela imposição de regras justas, é que se consegue cativar esses alunos. Quando a “seca” é a base do vocabulário dos alunos, já para não falar do “Não sei! Sei lá! Não me apetece!”, há muito que fazer. Felizmente, alguns conseguem dar a volta por cima, quase sempre com o suporte da família, do Gabinete de Psicologia da Escola e dos seus Professores.

Mas as actividades que alguns consideram uma “seca” são “bué” engraçadas para outros. Até mesmo “bué totil”. Se a primeira expressão foi repescada da linguagem associada ao clima, expressando a ideia de maçada, importunação, estopada, “bué totil” é uma conjugação do advérbio angolano, que significa muito, com o neologismo totil dos programas de animação de uma estação privada de televisão. Estas duas palavras conjugadas originam uma exclamação de superlativo agrado.

O que é certo é que os “bué totil” são muito mais enérgicos do que os que consideram tudo uma “seca”. Os primeiros são entusiasmados por natureza, têm uma curiosidade inata, estão ávidos do conhecimento e da cultura. Deixam-se inflamar pelas actividades mais simples, transformam tudo numa campanha de aprendizagem.

Uns e outros são como são e convivem nas Escolas, gerindo amizades e aprendizagens, amores e desamores, silêncios e afectos. Todos ávidos de aprender e ser alguém na vida, alguns já desiludidos, mas ainda tão novos, outros, muitos, apostados com entusiasmo na VIDA, porque ela é “bué totil”!