Dar com alegria

Poço de Jacob – 50 Dar e dar-se é amor na sua definição. Dar com alegria implica que eu me sinta, como há dias me disse alguém, um “eco de amor”, que vem de Deus e invade o mundo. Dar o que é nosso e dar o que nós somos, na nossa imensa capacidade.

Quando era mais novo, vi um filme na TV que nunca mais esqueci, tanto me impressionei com ele. Tratava-se de um homem e de uma mulher em situações separadas, mas que iam sendo apresentados em paralelo, ora uma situação da vida dele, ora da vida dela. Ele era bondoso, extremamente carinhoso com todas as pessoas que encontrava no caminho. Ela era o oposto: má, só prejudicava e fazia chorar. Nas últimas cenas, os dois aparecem juntos no mesmo apartamento. Afinal, eram um casal e tinham estado todo aquele dia na rua, cada um envolvido na sua bondade ou na sua maldade. E o filme termina quando ele diz para ela: “Amanhã trocamos os papéis. Eu farei o mal e tu farás o bem”. Fiquei chocado com o desenlace do filme. Mas entendi a mensagem: O amor, como o pecado, nada custam; com o mesmo esforço para fazer o mal também podemos fazer o bem; a tua vida pode ser orientada pelo que mais prazer te dá; e só há felicidade em quem dá e dá com alegria, em quem faz surgir um sorriso nos olhos e nos lábios; que odiar não é natural no homem.

Mas também penso na qualidade desse amor. Para dar e causar alegria, devemos dar com eficácia e responsabilidade pessoal. Lembro-me de que na minha formação, quando nos orientávamos nos aspectos da vida pastoral, alguém chamou-nos a atenção para o ser leitor nas missas. De facto, por vezes surpreende-nos a falta de cuidado das pessoas na sua consciência do outro. Vemos isso no estacionar o carro na cidade, nas casas de banho públicas que encontramos sujas e em tantas outras coisas. Quando proclamo a Palavra de Deus, não estou a lê-la para mim, como um jovenzinho que está na sala de aulas. Estou a proclamá-la para os outros, pelo que devo preocupar-se que o outro ouça e entenda o que digo e leio. Sou só veículo. Nos aeroportos vemos esta falta de cuidado ou nas estações de comboio. Dão-se avisos de tal modo que só quem falou sabe o que disse. Se a acústica é má, o esforço em contorná-la é pior. Contentamo-nos com pouco, mas na hora de sermos destinatários, queremos o máximo e reclamamos: Não se ouve. Não entendi nada… Há que saber pronunciar, saber guardar a distância do microfone ou ir variando essa distância conforme a entoação que a leitura nos exige. A leitura pode não ser uniforme. Conforme o diálogo, tem de ser mais alta, ou mais baixa, respeitando as pontuações, a admiração, etc. Isso não é só dar, mas dar com alegria. Não é o dar sorrindo, mas o dar bem, para que o outro se sinta servido com qualidade, e isto aplica-se em todas as circunstâncias da nossa vida. Por isso, os termos que usamos têm muito mais para nos dizer do que o que aparentemente parece, como acontece com os enunciados dos dez mandamentos. Que esta reflexão nos ajude a estarmos mais atentos ao eco de amor que devemos ser.

P.e Vitor Espadilha