Deus é mau pagador

A Árvore de Zaqueu Habacuc não vivia nos melhores dias: o povo judeu era continuamente arrasado pelos povos mais poderosos (cerca do ano 600 antes de Cristo). E não hesita perante duras recriminações contra Deus: então nós, que somos o teu povo e acreditamos em Ti, somos espezinhados pelos teus inimigos, que se riem da nossa fé e se gabam de que não precisam de Deus nenhum para serem fortes? Como é que Tu permites que o «justo» seja tanto tempo maltratado pelo «ímpio»? Mas Deus corrige o seu profeta: não está certo identificar «o povo de Deus» como «o justo» e muito menos considerar todos os outros como «o ímpio». De certa maneira, «o povo escolhido» é o verdadeiro ímpio, pois dizendo que acredita em Deus, não age à imagem da bondade de Deus; não estará até, de algum modo, a provocar a ira e crueldade dos povos vizinhos? Por outro lado, o comportamento condenável de toda uma sociedade é fruto da semente do mal, que cada pessoa deixa ou não crescer dentro de si.

E lembra a Habacuc de que vale a pena esperar em Deus, mesmo «contra toda a esperança», como dirá S. Paulo centenas de anos depois. É este Paulo que, na segunda leitura, pede a Timóteo que não se envergonhe de «dar testemunho de Nosso Senhor», porque Deus «não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e de moderação».

Nos dias de hoje, o que parece mais faltar é o espírito de fortaleza. Porém, ter força e não a saber moderar, só é contraproducente. Por seu lado, o próprio amor necessita de prudência, para obter um efeito mais duradouro – uma prudência que se confunde com a esperança pertinaz.

Mas o evangelho é estranho: os discípulos pedem a Jesus: «Aumenta a nossa fé». E Jesus, longe de responder, até sublinha a pequenez da fé deles e chama de «inúteis» os servos que trabalharam todo o dia.

Estes dois exageros reflectem apenas a maneira de falar da época. Como era habitual, os servos não comem à mesa do seu senhor, e é suposto que trabalhem bem. A novidade está no adjectivo «inúteis»: aponta para que os bons servos estão sempre dispostos a continuar a servir. É como se o pagamento fosse a consciência de ter cumprido o próprio trabalho, de acordo com a função que cada qual é capaz de exercer. Note-se, aliás, que o próprio Jesus Cristo se apresenta como «aquele que serve» (Lucas 22, 27) e, como senhor, convida os servos para a sua mesa (Lucas 12, 37). Na dimensão humana, o servo é submisso; na dimensão divina revelada, somos todos uma comunidade de “servidores”, cada qual com a alegria de poder ser ele próprio.

É mesmo preciso muita confiança para correr o desafio de amar com a moderação que não desestabiliza as relações humanas, agindo suavemente (a suavidade é uma característica típica do Messias, no Antigo e Novo Testamento). É assim o amor: não se cansa, não se julga merecedor de paga ou de descanso, não se julga superior a ninguém. De outra maneira, as relações humanas desembocam numa luta feroz pelos nossos «direitos», e se possível deixando para os outros todo o trabalho e toda a culpa.

É uma confiança (ou fé) que vai crescendo com a coragem de agir. Quem se decide a ter fé não recua perante o que parece impossível. Segundo especialistas, a frase do evangelho «se tivésseis fé, diríeis…» deveria ser transcrita de outro modo: «Se tivésseis fé, teríeis dito… teria acontecido…». Porque a fé não é ficar à espera de que as coisas aconteçam, mas fazê-las acontecer. Como «servos inúteis», nunca devemos parar de trabalhar, confiantes de que a nossa acção se integre no plano de Deus de libertação do Homem. É por isso que vale a pena querer erradicar a injustiça deste mundo; e vencer o desânimo perante o projecto da educação necessária para que saibamos harmonizar as nossas liberdades.

O pior é o «silêncio de Deus». Quem gosta de regressar a casa depois de um dia de trabalho, e a encontrar deserta? Deus nem deixa um recadito a dizer ao menos que um dia há-de aparecer para pagar…

Procurar fazer o bem no meio das maiores desgraças sociais – como nos pode fazer sentir o Deus que se chama Alegria? Nunca a desgraça alheia deve servir de consolo, mas apenas de incentivo para a debelarmos. Talvez que a palavra chave seja mesmo: incentivo. Nunca faltou gente da rua ou gente dos palácios a protestar contra Deus, porque não há justiça neste mundo, e nem o próprio Deus parece dar bom exemplo. E na verdade, o próprio Jesus se queixou, já pregado na cruz: «Meu Deus, porque me abandonaste?» (Porém, mesmo assim, soube consolar os outros).

Estranho pagamento, o de Deus! Tão estranho, que todos somos tentados a dizer que não vale a pena contar com ele. E no entanto, não tem faltado e não falta quem teimosamente semeie tudo o que há de belo e de bom. Não será por isso que Jesus Cristo disse que está connosco sempre que trabalhamos no projecto que veio semear entre nós?

Manuel Alte da Veiga