Escola Equestre de Aveiro, em Vilarinho – Cacia “Sair do passo… sair do trote… resposta pronta dos cavalos… sem precipitações… ombros para trás… se não disciplinarem os vossos corpos, não conseguirão disciplinar os vossos cavalos.” No picadeiro da Escola Equestre de Aveiro, em Vilarinho – Cacia, a voz de comando do professor e director da escola, José Maia Seco, faz-se ouvir com determinação. Nove alunos, todos jovens, montando outros tantos cavalos, ouvem e cumprem. Rostos denotando atenção e esforço mostram empenhamento e disciplina. O incitamento, o estímulo e o aplauso do director também não faltam.
Na Escola Equestre de Aveiro, José Maia Seco, com 20 anos de equitação e mais de dez como profissional, falou ao Correio do Vouga do seu mundo, com 40 alunos, dos oito aos 18 anos de idade. “Nós tentamos criar neles a vontade de aprender a estar não só em cima do cavalo, mas a integrarem-se em tudo o que lhe diz respeito”, afirma. E logo lembra que o cavalo, que é um animal que não consegue falar, “tem calor, sente frio, tem apetites e enerva-se”, desafiando-nos a “acalmá-lo, a educá-lo, a ensiná-lo, a conduzi-lo”.
O nosso entrevistado, que nos fala enquanto transmite ordens e dá sugestões, mescladas de incitamentos, não deixa de nos lembrar que a equitação desenvolve conceitos de rigor, de coragem, de autodisciplina e até estéticos. “O cavaleiro, para estar bem em cima do cavalo, tem de estar ligado ao movimento e tem de criar empatia com ele; se não o conseguir, pode inibir o animal de saltar mais alto, de correr mais depressa, de estar parado e equilibrado”, afirma.
Para José Maia Seco, a equitação exige um empenhamento muito grande, enquanto proporciona uma dinâmica sensorial e motora, encoraja a autonomia e a tomada de decisão, desenvolve a capacidade de comunicar e melhora a condição física e mental.
Porém, o nosso interlocutor não deixa de nos falar da hipoterapia, que não está tão aproveitada como seria de desejar. E embora os apoios médicos não tenham surgido, Maia Seco teima em divulgar e em implementar a resposta da equitação a pessoas portadoras de deficiência. Daí que alunos de algumas instituições, como a APPACDM e a CERCIAV e o CASCI, tenham já usufruído dos benefícios dos tratamentos que o acto de montar oferece.
O cavalo é utilizado como recurso terapêutico nos mais diversos tipos de deficiências, nomeadamente nos casos de paralisia cerebral, de problemas neurológicos e ortopédicos e, ainda, da síndroma de Down. Distúrbios de comportamento, autismo, esquizofrenia e psicoses também encontram na equitação uma preciosa ajuda.
Para o director da Escola Equestre de Aveiro, “os alunos portadores de deficiências recebem do cavalo estímulos para os movimentos que têm dificuldade em fazer”, mas nunca será com uma ou outra lição que se vêem resultados significativos. A hipoterapia exige exercícios persistentes e envolventes, numa perspectiva de conduzirem à empatia que favorece a autoconfiança e desenvolve os estímulos.
O contacto com o animal e com os demais cavaleiros incentiva a reintegração social dos pacientes, ao mesmo tempo que desenvolve neles o controle de postura e a coordenação de espasmos. Ao tentarem equilibrar-se no dorso do cavalo, as pessoas com deficiência esforçam-se por conseguir a coordenação motora, adianta ao Correio do Vouga Maia Seco.
Por outro lado, os alunos da Escola Equestre, com ou sem deficiência, não se limitam a montar. Todos vivem em permanente contacto com o habitat do cavalo, ao ar livre, o que é muito salutar. Limpam-no, dão-lhe de comer, escovam-no, fazem-lhe a cama, preparam os arreios, sentem as reacções do animal e descobrem o seu bom ou mau humor. Com o cavalo, afinal, também se aprende a ser gente.
