1 – O objectivo primordial de alguns Estados modernos é legislar a anomia. Isto é, a preocupação de “libertar” de tudo o que seja regra institucional, o que leva a regulamentar as excepções, tornando todas as situações iguais, as “regulares” e as “não-regulares”.
Ou seja, a pretexto do legítimo respeito por todos, por todas as opiniões, por todas as escolhas, por todas as situações, pretende-se “legislar o relativismo absoluto” – o que quer dizer que cada um, nas suas ideias, nos seus sentimentos, nos seus comportamentos, se torna norma de verdade, sem hipótese de uma avaliação a partir de princípios prévios, objectivos, acima de cada um. O que, necessariamente, conduz ao reino sem lei, à anomia.
2 – A primeira consequência é a cultura de um individualismo feroz, que nega a essência da própria pessoa humana: a sua individualidade só se torna pessoa na relação. Não havendo regras acima – melhor ainda, se forem integradoras – da diversidade de opiniões, a organização social e a governabilidade tornam-se impossíveis.
3 – Significa isto que a democracia tem parâmetros de possibilidade, tem necessidade de limites, de fronteiras. Quando, há alguns anos, um eminente político da nossa praça reclamava a necessidade de restabelecer o “prestígio do mestre” e encontrar um qualquer “catecismo laico” de referência, fazia-o na convicção de que é preciso uma autoridade que convença pela dedicação e saber e um conjunto de regras que conciliem a individualidade com a relação, em ordem a permitir a pluralidade dialogante de grupos e correntes. Enfim, são os limites que poderão tornar exequível a sociedade e governável uma nação.
4 – Apontava o referido político alguns “possíveis” referenciais, que não andavam longe do quadro dos direitos fundamentais da pessoa humana, lidos em contexto solidário. Curiosamente, em debate público de há umas semanas, um Professor universitário, ex-Ministro da Educação, voltava ao assunto, para dizer que o caminho da Educação – fundamento de uma sociedade democrática, dizemos nós! – passa pelos princípios: da dignidade humana, do destino universal dos bens, da opção pelos pobres, da luta pela justiça social, da gratuidade, solidariedade e disponibilidade, do bem comum!
5 – Assumir estas orientações de educação e governação é o único caminho de regeneração de pessoas responsáveis e de construção de sociedades harmoniosas e participativas. Não podem ser outros os interesses vigentes, os objectivos propostos. Quem o não fizer continuará a destruir a identidade nacional, a viabilidade do país. Seduzirá os individualismos, exacerbará os corporativismos, estimulará os clientelismos… fazendo-nos atolar, cada dia mais, no pântano que nos engole, fazendo-nos adormecer cada vez mais docemente na “gás tóxico” que nos eliminará!
6 – E que se não envergonhem os cristãos da Doutrina Social da Igreja, como guia de desenvolvimento pessoal e social, porque ela bem assume, dando-lhe a profundidade da fé, os valores do humanismo perfeito, gerador de mentes novas, motor da inclusão e coesão social, inspiração de paradigmas económicos humanizantes.
