Questões Sociais De vez em quando surgem notícias relativas a empresas com ofertas de emprego que não conseguem preencher. Verifica-se, deste modo, a falta de trabalhadores, a par de uma taxa de desemprego bastante alta. Porquê?
Naturalmente, as respostas a esta pergunta são bastante diversificadas, e acham-se marcadas por preconceitos. Neste artigo, enumeram-se apenas dois conjuntos de factores explicativos do fenómeno. Existem outros, sem dúvida, porventura até mais importantes. Isso porém não obsta, bem pelo contrário, a que se comece por estes.
Um conjunto de factores respeita aos desajustamentos no mercado de emprego; e o outro aos desfasamentos das políticas de emprego.
Os desajustamentos no mercado de emprego consistem na insuficiente correspondência entre a procura e a oferta ou, por outras palavras, entre os postos de trabalho vagos e os trabalhadores desempregados. Registam-se desajustamentos quantitativos, qualitativos e geográficos: os quantitativos têm a ver com a não coincidência numérica; os qualitativos resultam das qualificações insuficientes, «excessivas» ou inadequadas, bem como do crescimento das aspirações a ritmo superior ao das oportunidades de emprego; os desajustamentos de natureza geográfica respeitam à distância entre a localização dos postos de trabalho e as residências dos trabalhadores.
Os desfasamentos das políticas de emprego consistem, especialmente, no «financismo», no menosprezo do trabalho e no distanciamento da realidade. Passo a abordar os dois primeiros.
O «financismo» reporta-se ao peso político atribuído aos apoios financeiros, justos e injustos. Existem apoios, para trabalhadores e para empresas, visando o acesso ao emprego, a formação e a protecção no desemprego. O Estado actua como se fosse um macro-mecenas: distribui montantes financeiros impressionantes, em benefício apenas de uma parte dos destinatários potenciais.
O mesmo Estado alia-se a uma tendência forte na sociedade portuguesa que menospreza o trabalho. Segundo esta tendência, nem todo o trabalho é igualmente digno, e aprova-se a recusa do que é considerado «inferior». Uma opinião pública, bastante difundida, até entende que é mais dignificante o trabalhador receber um subsídio do que trabalhar em determinadas actividades, que, embora conformadas com a lei, estão marcadas pelo estigma da «inferioridade».
Paradoxal e quase cinicamente, o Estado oscila entre a cultura da subsidiodependência e a do trabalho forçado, alheando-se da dignidade laboral: a cultura da subsidiodependência resulta não só das ajudas financeiras mas também da promoção tácita do oportunismo; e o trabalho configura-se forçado, na maneira como é imposta a respectiva aceitação, tanto no regime do subsídio de desemprego como no do rendimento social de inserção.
Em vez de respeitar e actualizar o valor ancestral da dignidade inerente ao trabalho, criou-se um ambiente social em que, por vezes, é vantajoso não trabalhar. E, para contrariar este ambiente, o Estado cria e aplica sanções várias, sem chegar ao fundo da questão; força, em vez de valorizar.
