Questões sociais No Verão de 1942, o filósofo francês Jacques Maritain escreveu um livro precioso, intitulado «Cristianismo e Democracia». O livro, escrito em plena guerra, contém uma proposta consistente para os tempos de paz.O Autor afirma, logo no prefácio: «o que se podia esperar, o que se pode e deve esperar é que a Vitória, ao destruir a servidão totalitária, não se limite a desimpedir a história, e abrir a possibilidade de um trabalho construtivo, mas estabeleça realmente as condições positivas preliminarmente exigidas para esse trabalho» (edição da Livraria Agir, Rio de Janeiro, 1964, p. 18).
Felizmente, aconteceu uma forte convergência de correntes de pensamento e de forças políticas defensoras desta mesma orientação. Os partidos políticos de inspiração social-democrata e democrata cristã, com estas ou outras designações, puseram-nas em prática ao longo de várias décadas. Exagerando um pouco, até se falou nos «gloriosos trinta anos» subsequentes à guerra.
O livro de J. Maritain inclui uma passagem deveras significativa, relacionada com as desigualdades sociais. Vale a pena transcrevê-la: «desperto a si próprio pelo movimento da civilização, sabe o homem da humanidade comum que hoje a sua idade chegou, caso consiga triunfar da corrupção totalitária e não seja por ela devorado. Sabe que a ideia de uma casta, de uma classe ou de uma raça hereditariamente constituída, como senhora e dominadora, deve ceder o lugar a uma comunidade de homens livres, iguais em direitos e iguais no trabalho, bem como à ideia de uma elite do espírito e do trabalho que provenha do povo sem dele se isolar(…)» (pp. 58-59). Mais adiante, acrescenta o Autor: através das próprias «desigualdades funcionais, exigidas pela vida social, deve a igualdade reestabelecer-se num nível mais elevado, frutificando na possibilidade para todos de alcançarem uma vida digna do homem, no gozo, a todos garantido, dos bens materiais e espirituais de uma tal vida, e na participação real de cada um, segundo suas capacidades e seus méritos, na actividade comum e na herança comum da civilização» (p. 59).
Muito denso, este texto encerra a base nuclear de um verdadeiro programa político. Ao longo dos referidos trinta anos, prevaleceu, na Europa democrática e em grau variável naturalmente, a orientação aqui preconizada.Verificou-se um crescimento económico extraordinário e, em simultâneo, a diminuição de desigualdades sociais. O caminho era estreito e difícil, à partida, mas tornou-se muito amplo e promissor.
Infelizmente, não foram evitados os extremos inadmissíveis da pobreza e da riqueza. E, pior do que isso, não estamos preparados para a eliminação de tais extremos. Pelo contrário, arriscamo-nos a não serem mantidos os patamares de igualdade social relativa atingidos no passado.
