
D. António Moiteiro completou no dia 13 de setembro um ano como Bispo de Aveiro. Dias antes, esteve em Roma, com os bispos portugueses na “visita ad limina”, isto é, a visita que os bispos devem fazer periodicamente ao Papa. Neste entrevista ao Correio do Vouga, revela alguns aspetos da visita, faz um balanço deste ano em Aveiro e fala da visita pastoral a Águeda, que se inicia em outubro. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
Correio do Vouga – Sr. Bispo, que impressões lhe ficaram desta sua primeira visita ao Papa?
D. António Moiteiro – A primeira realidade que me ajudou a ter uma perspetiva da “visita ad limina” foi elaborar o relatório quinquenal. Juridicamente, como era Bispo de Aveiro há um ano, não era obrigado a fazer o relatório. Tinha acontecido o mesmo com D. António Francisco. Ele veio para Aveiro em 2006 e logo a seguir foi a visita (novembro de 2007). Ele fez o relatório juntamente com D. António Marcelino. Foi assinado pelos dois. Ora, eu pensei que um serviço que poderia fazer à Diocese e aos serviços centrais da Igreja era elaborar o relatório. Se não tivéssemos feito os relatórios, quer eu, quer D. António Francisco, porque não éramos obrigados, a Diocese de Aveiro teria um período longo sem relatório. Este primeiro aspeto ajudou-me a entender os números da Diocese, a realidade humana e as suas várias instituições.
A visita propriamente dita constou de três partes. Primeiro, o encontro com o Papa. Depois, a celebração da Eucaristia nas quatro basílicas, S. Pedro, S. Paulo Extramuros, S. João de Latrão e Santa Maria Maior. Celebramos, ainda, no Colégio Português. Por fim, a visita aos organismos da Santa Sé, congregações e pontifícios conselhos.
Como foi o encontro com o Papa Francisco?
No encontro com o Papa percebemos verdadeiramente que o Papa é um pai. Posso revelar, não é sigilo, que o Papa começou por nos dizer: “Estai à vontade. Colocai todos os problemas que entenderdes. Estamos todos à vontade. Até podeis criticar o Papa”.
E criticaram?
Não surgiram críticas, mas apresentamos os nossos problemas. Ficou-me a impressão de paternidade e ao mesmo tempo de colegialidade. Eu, bispo, senti-me sucessor dos apóstolos. Não me senti como um delegado, mas como aquele é o pastor que o Espírito colocou nesta igreja para, juntamente com o Papa, em comunhão eclesial, a construirmos. Foi um sentimento forte. Não somos delegados, somos bispos nas nossas dioceses como ele é Bispo de Roma.
O segundo ponto que realço foi a clarividência com que o Papa tocou em alguns dos aspetos fundamentais da nossa vida de Igreja portuguesa. No discurso falou-nos fundamentalmente da juventude, inserida na catequese, na revitalização da fé e na sinodalidade.
A Igreja é Igreja enquanto comunhão e, enquanto comunhão, tem a missão da formação cristã: fazer discípulos, formando-os sobretudo pela catequese. Ainda nesta questão da comunhão, o Papa alentou-nos à esperança perante o desafio da secularização galopante na Europa. Afirmou que há paróquias que não respondem a estes desafios, mas foi para nós fonte de esperança na missão que nos está confiada.
Sinto que as questões referidas pelo Papa são os problemas-chave que também que referi na minha entrada em Aveiro: família e jovens. Nós vamos dando conta que a iniciação cristã – o fazer discípulos, que é disso que se trata –, tem muitas deficiências devido a imensos fatores: sociais, familiares, da economia. Há muitos fatores que afetam a transmissão dos valores e dos Evangelho. O Evangelho não é transmissão de valores, é uma pessoa, Jesus Cristo, que leva consigo um estilo de vida que implica vivência de valores. Outro aspeto que o Papa realçou foi a sinodalidade. Um pároco não pode trabalhar sozinho, um movimento apostólico não se pode isolar. Não podemos trabalhar sozinhos. O presbitério tem de ser uma comunhão, o bispo tem de estar em comunhão com a Igreja diocesana. Só nesta sinodalidade, isto é caminhar juntos, se constrói o Reino de Deus.
A sinodalidade também se refere ao “caminhar juntos” das dioceses?
Temos a obrigação de, na Igreja, partilharmos a vida, os recursos humanos e até económicos. Se vamos analisar caso a caso, temos dioceses com mais recursos que outras, mas todas elas têm outras dificuldades. As dioceses já partilham vários sacerdotes para os serviços da Igreja portuguesa. Tem sido muito saudável essa partilha. O Papa referiu este aspeto importante: o renovamento da pastoral da Igreja em Portugal desde a última visita. Tem sido um trabalho em conjunto importante e com reflexos na vida das dioceses.
Este trabalho nacional, depois da visita de 2007, está mesmo a avançar? Ou só se fez um documento de recolha das partilhas das dioceses?
Há atrasos na implementação de linhas nacionais, mas a Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização está empenhada em continuar este trabalho. Penso que é um dos desafios que vamos ter no próximo plenário da Conferência Episcopal Portuguesa. Temos de analisar o discurso do Santo Padre e descobrir caminhos de renovação. Este trabalho ficou aquém daquilo que se esperava, mas serviu para ir dando alguma consistência aos planos pastorais das dioceses.
Falou ao Papa de Aveiro, além de levar o relatório?
O relatório é um documento estatístico: quem é o bispo, quais são os serviços, como está a catequese, os jovens, o presbitério, quantos foram ordenados, quando saíram, como está a relação com outras religiões, com está economia da diocese… enfim, a vida normal.
O Papa não recebeu cada bispo em particular, como noutras visitas. Reuniu com os bispos da Províncias de Lisboa e Évora e depois com os da de Braga, à qual pertence Aveiro, juntamente com o Ordinariato Castrense.
Dentro da reserva que é o diálogo com o Papa, o que nós fizemos foi colocar durante hora e meia algumas questões e dialogar. Colocávamos perguntas e inquietações, o Papa dava a sua opinião e foi muito enriquecedor. No final, os bispos que tinham experiência de encontros pessoais diziam que assim também foi muito rico porque cada um de nós representou não tanto a diocese mas sim mas os problemas que são comuns. Refletimos em conjunto.
Na ordem alfabética, a Diocese de Aveiro é a primeira. Eu estava do lado esquerdo do Papa. Depois do arcebispo primaz, eu apresentei a diocese. Disse que somos uma diocese à beira mar, restaurada em 1938, que eu era bispo recente na nomeação e na tradição apostólica. Falei da juventude, disse que temos uma população jovem, falei da universidade, polo de tração para os jovens, e falei da preocupação de cada bispo, que é santificação do presbitério e das vocações.
O Sr. Bispo está há um ano na Diocese. Como foi este primeiro ano? Tem agora, com certeza, outra visão de Aveiro…
Quero dizer algo que não é verniz, é verdade. Deus deu-me um dom que é gostar de trabalhar com as pessoas que encontro. Não é fictício. Na minha vida de sacerdote e nos dois anos que estive em Braga, sinto que as pessoas com quem trabalhei me eram queridas. E isto também sinto na Diocese de Aveiro. Deus deu-me o dom de amar e gostar de trabalhar com as pessoas que encontro.
Depois, a nível da diocese, sinto que é nova, enquanto outras têm centenas de anos. Admirei-me por ouvir alguns sacerdotes dizerem que não conheciam alguns colegas de presbitério porque nem todos tinham tido o mesmo berço, o mesmo seminário – mas este é só um aspeto. Sendo uma diocese jovem, tem que criar os seus dinamismos.
É uma diocese muito viva, quer no trabalho com os padres, quer no trabalho com os leigos. Há movimentos laicais com dinamismo, não todos, infelizmente.
Também sinto que a diocese podia dar mais. As vocações de consagração são poucas para a população que temos. O trabalho está a ser feito, mas há passos da dar.
Este ano foi de conhecimento. Não conhecia da Diocese. Neste momento, posso afirmar que conheço geograficamente bem a diocese. A nível de padres e diáconos, há uma relação de família e de amigos. E conheço bastantes leigos que trabalham aqui e ali, nas paróquias, nos serviços e movimentos.
Já foi a todas as paróquias?
A quase todas. Já celebrei em praticamente todas as igrejas matrizes. Talvez falte celebrar em meia dúzia [das 101 paróquias], mas já estive em todas.
O Papa Francisco diz que o Bispo umas vezes tem de ir à frente do rebanho, outras no meio e por vezes atrás. Como pastor, para onde conduz o rebanho?
No encontro com o Papa, houve alguém que perguntou o que podemos fazer para o ajudar na missão de Pedro. E ele disse duas coisas: primeiro, que rezássemos e fôssemos homens de oração. Explicou que ao pedir que rezemos por ele, tem a consciência de que sendo frágil e pecador só a fé da Igreja o pode sustentar e manter. E depois falou do anúncio do Evangelho e duas dimensões, kerigma e testemunho. Kerigma é o anúncio de Cristo ressuscitado, é pôr a pessoas em contacto não com doutrina, valores ou preceitos, mas com a pessoa de Cristo. E depois acrescentou: “Isto acontece quando nós, bispos, somos exemplo para os fiéis”. O primado da graça é a obrigação do bispo. Isto é para mim a missão fundamental do bispo: ajudar a que a nossa Igreja diocesana seja uma comunidade de santos, seja uma comunidade onde Cisto Ressuscitado está no centro. É este objetivo pelo qual me entusiasmei e estou entusiasmado no processo de virtudes de Santa Joana. Ela é um modelo de santidade para nós, aveirenses. Ela foi à nossa frente, indicou-nos o caminho, sendo próxima, até está sepultada no meio de nós. Isto é o primado da graça. A Igreja só é Igreja se for rosto de Deus. É nesta caminhada para a santidade que todos nos temos de empenhar. Ao serviço desta missão está tudo: o anúncio do Evangelho, a liturgia, a caridade o testemunho individual, as nossas instituições de solidariedade social. O bispo é um cristão que tem de santificar.
Disse noutras ocasiões que começaria as visitas pastorais pelos arciprestados que D. António Francisco não visitou…
Sim, vou começar por Águeda e depois faltará Ílhavo e Aveiro. Águeda tem 19 paróquias, com cerca de 50 mil habitantes. Começarei nos fins de outubro, em Recardães, e vamos terminar nos fins de abril. As duas últimas semanas serão na cidade de Águeda. Já tive duas reuniões com os padres e há dimensões fundamentais que queremos realçar. Como pastor da Igreja, vou ajudar a comunidade cristã a crescer na fé. Vou sustentar na fé. Isto faz-se de várias maneiras: no encontro com os mais frágeis (instituições com mais novos e mais velhos), mundo do trabalho, pois é preciso refletir o Evangelho na vida económica…
Vai visitar fábricas?
Vamos fazer o encontro com pessoas. Pode não ser visitar fábricas, mas estar com operários e responsáveis. Em cada paróquia haverá assembleias paroquiais com os organismos vivos da paróquia, para fazermos uma análise e projetarmos o futuro. Ao nível do arciprestado haverá encontros setoriais com catequistas, com o mundo da economia, sobre a misericórdia… Durante a semana haverá Eucaristia com Unção dos Doentes e ao domingo a Eucaristia festiva de encerramento.
Vai e vem todos os dias para Águeda ou fica nas paróquias?
Nalguns casos poderei ficar. Há paróquias que têm condições para acolher. Mas isso ainda não está definido.
