Excertos da homilia de D. António Francisco
É o Deus eterno e santo, uno e trino, que “faz maravilhas” e que é Bendito porque “nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo”; é esse Deus que me envia como bispo à Igreja de Aveiro, para continuar, em ininterrupta sucessão apostólica, a missão dos pastores que me antecederam.
Deus envia-me para esta diocese, já rica de história: sinal e certeza de que Ele abençoa e ama esta Terra e este povo que é Seu e no meio do qual estabelece morada santa.
Agradeço-vos o acolhimento caloroso e fraterno que desde o primeiro momento me dispensastes. A ninguém perguntarei “donde vem, que é e o que faz”. Para mim cada um de vós é um irmão. Convosco sou cristão; para vós sou bispo.
Escolhi este dia para iniciar o serviço pastoral nesta amada Igreja de Aveiro, beijando o chão sagrado da sua Sé Catedral, porque a vida, a vocação sacerdotal e o ministério episcopal a que fui chamado me remetem, sem cessar, para a Mãe “a grande Crente, que, repleta de confiança, se coloca nas mãos de Deus, abandonando-se à Sua vontade”
A mãe e os filhos são sempre inseparáveis. Esta união é um hino à vida: à vida das pessoas e à vida da Igreja; à vida desta querida Diocese de Aveiro, que escolheu a Igreja dedicada a Nossa Senhora da Glória para sua Catedral. Indelevelmente unidas a Cristo, Nossa Senhora e a Igreja são igualmente inseparáveis entre si. Em Cristo, a Igreja tem a sua origem, a sua fonte e o seu fundamento; em Maria, tem o seu paradigma e o seu modelo. A Virgem Imaculada configura a Igreja, acompanha-a e protege-a nos seus caminhos.
A nossa redenção e o caminho libertador da humanidade e da história começam a aproximar-se no “Sim”, no Fiat generoso e livre desta Mulher, que aceita ser a Mãe do Salvador. A saudação do Anjo inicia o advento do Natal perene e anuncia a Páscoa definitiva. A Igreja é, no seu mistério, Encarnação continuada e presença no mundo do Ressuscitado, pelo Espírito Santo. Para a Igreja peregrina, Maria é a Mãe de “consolação, de bondade e de esperança” (Bento XVI). Na manhã de Pentecostes sob o olhar materno de Maria e repletos dos dons do Espírito Santo, os Apóstolos venceram o medo, deixaram as suas terras e seguranças, os seus barcos e redes e partiram.
É com o mesmo espírito do Pentecostes que inicio a minha missão em Aveiro.
Nesta cidade de nobres pergaminhos na defesa da liberdade e de reconhecido prestígio no campo do ensino, da ciência e da investigação, as bem-aventuranças oferecem-nos, em linguagem que o tempo não desgasta e em paradigmas que os séculos não destroem, uma das mais belas sínteses do Evangelho e Carta Magna de um humanismo integral, como proposta de paz, anúncio de esperança e semente de renovação.
Convido-te, Igreja de Aveiro, para, contemplando as maravilhas de Deus e confirmando e ajudando a crescer na fé a comunidade dos crentes, oferecer ao mundo a evangelizar rumos e razões para escolher a vida, para acolher o dom de Deus, para assumir a dignidade da nossa filiação divina, para promover a fraternidade, para construir o progresso e a justiça social, para abrir novos horizontes à inteligência, à vida e à cultura humanas. Para nós, a Eucaristia faz a Igreja, é o centro e o vértice do nosso viver, a fonte do ser-viço incondicional às causas do homem e profecia de um mundo de frater-nidade e de justiça.
Peço-vos, Senhor nosso Deus, por intercessão de Nossa Senhora, a Imaculada Conceição, e de Santa Joana, Princesa de Portugal, nosso modelo de fé e nossa Padroeira, que me ensineis a unir o magistério e a profecia, a memória e o testemunho, a fidelidade à história e a ousadia missionária de caminhos novos, a gratidão e a esperança e, assim, nas belas expressões de S. Paulo, me faça “tudo para todos” e “tudo fazendo por causa do Evangelho”.
