Deus não é parcial

À Luz da Palavra – XXVIII Domingo Comum – Ano C A liturgia deste domingo afirma-nos que Deus oferece a sua salvação a todos os povos, em Jesus Cristo, e que, muitas vezes, os pagãos e os adeptos de outras religiões não cristãs têm uma confissão de fé mais pura e são mais agradecidos para com Deus do que nós, cristãos e cristãs.

A primeira leitura apresenta-nos a história de um leproso, o sírio Naamã. O episódio revela que só Iavé nos oferece a vida e a salvação, sem limites nem excepções; a nós, resta-nos acolher o dom de Deus, reconhecê-lo como o único salvador e manifestar-lhe a nossa gratidão. Assim sucedeu com Naamã, que, ao descobrir que o profeta o tinha liberto da sua lepra, em nome do Deus de Israel, confessou a sua fé no único Deus, mostrou-me grato, afirmando que doravante não ofereceria nem holocaustos nem sacrifícios a outros deuses. Este texto convida-nos a interrogar-nos sobre em quem pomos a nossa confiança e a nossa esperança de felicidade – em Deus, ou nos ídolos: videntes, espíritas, dinheiro, sucesso…?

O evangelho mostra-nos um grupo de leprosos que se encontram com Jesus, e que através de Jesus descobrem a misericórdia e o amor de Deus. Eles representam toda a humanidade, envolvida pela miséria e pelo sofrimento, sobre quem Deus derrama a sua bondade, o seu amor, a sua salvação. Hoje a lepra é uma doença muito rara e tem cura. No passado, era um flagelo incurável e altamente contagioso, tal como a SIDA o é hoje. O povo bíblico tinha leis muito severas sobre os leprosos. Quem fosse vitimado com esta doença tornava-se impuro; tinha de se afastar para lugares recônditos, para não contagiar os outros, e, por este facto, não podia participar nas celebrações judaicas, na sinagoga ou no templo. Porém, tanto no Antigo como no Novo Testamento, Deus declara o seu repúdio por estas leis. Manifesta um profundo amor por estes excluídos, curando a lepra física de alguns e concedendo-lhes o dom da fé. Nos textos de hoje, este dom foi concedido a israelitas e estrangeiros. O curioso é que só os estrangeiros reconheceram o dom da cura, aderindo intimamente a Deus e a Jesus Cristo, através de uma maravilhosa expressão de fé. Como lidamos nós com aqueles que a sociedade marginaliza? Que fazemos por eles ao jeito de Jesus?

A segunda leitura define a existência cristã como identificação com Cristo. Quem acolhe o dom de Deus, torna-se discípulo: identifica-se com Cristo, vive no amor e na entrega aos irmãos e chega à vida nova da ressurreição. Numa Igreja missionária de que faço parte, sinto eu, como Paulo, o imperativo de anunciar as maravilhas de Deus pela minha vida e palavra, pois que não podemos “prender” a palavra de Deus? Em que medida a minha fé é pura, esclarecida, agradecida, até me levar à audácia de sofrer e morrer com Cristo, na certeza de que com Ele hei-de viver e triunfar? Neste novo ano pastoral, quero-me empenhar no “tratamento” da abundante miséria humana e espiritual que avassala a nossa sociedade, sob diversas formas, inserindo-me em grupos apostólicos na minha comunidade paroquial, como gente que sabe apontar o caminho da cura?

XXVIII Domingo Comum: 2 Re 5,14-17; Sl 98 (97); 2 Tm 2,8-13; Lc 17,11-19

Deolinda Serralheiro