Valdir João Silveira é responsável da Pastoral Carcerária do Brasil. Vive em São Paulo. No início de maio esteve em Fátima para participar no I Congresso Ibérico da Pastoral Penitenciária, evento que foi organizado pela pastoral penitenciária portuguesa, que é coordenada pelo sacerdote aveirense P.e João Gonçalves.
O Brasil tem mais de meio milhão de presos. O padre responsável pela coordenação da pastoral penitenciária do Brasil participou no congresso “Dignificar a pessoa presa” e falou ao Correio do Vouga sobre a falta de condições nas prisões brasileiras e os protestos populares por causa do Campeonato Mundial de Futebol, que começa amanhã, 12 de junho. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Em traços largos, como descreve a pastoral das prisões no Brasil?
VALDIR JOÃO SILVEIRA – O Brasil tem uma população prisional de cerca de 570 mil pessoas. Os capelães são todos voluntários, leigos, padres e religiosos. Libertados para se dedicarem a tempo inteiro a esta pastoral, são muito poucos. Eu fui o primeiro, há seis anos. Foi o Cardeal Cláudio Hummes que me nomeou para este serviço. Antes, diversos outros padres estrangeiros, como o P.e Gunther, da Áustria, desenvolveram trabalho neste campo. O escritório nacional da Pastoral Carcerária fica na cidade de São Paulo. O Estado de São Paulo é o que tem maior população nas prisões, cerca de 213 mil pessoas.
Em Portugal, temos a ideia, até propagada por alguns filmes, que a situação dos presos, no Brasil, é muito degradante. Corresponde à realidade?
Temos alguns estados a caminhar para uma coisa mais tranquila, mas ainda muito limitada. A grade maioria das presídios, mais de 98%, estão superlotados. Em São Paulo, que é a maior capital estadual, devíamos ter 12 presos por cela e temos 50 ou 60. As unidades prisionais estão com três ou quatro vez mais população do que o que a capacidade ideal. Os nossos presídios não têm aquilo que a lei determina, como espaços para aulas e estudo e para trabalho. Por isso, há ociosidade. E nessa grande ociosidade, o Estado não cumpre com o elementar, como material de higiene e alimentação. A alimentação é de péssima qualidade. Outro grande problema é a saúde. Como tratar os presos doentes? Só no Estado de São Paulo, nos últimos dez anos, morreram em média, por ano, 495 presos por falta de atendimento médico.
Nos últimos anos, o Brasil avançou muito em termos económicos. Essa melhoria sente-se no sistema prisional e nas condições de vida dos presos?
A evolução ainda não atingiu as classes mais pobres do país. Muita gente saiu da faixa da miséria e houve um aumento de consumos, graças à Bolsa Família [programa do governo brasileiro para beneficiar as famílias em pobreza extrema]. Mas o aumento do desejo de consumo também levou ao aumento do tráfico de droga. Das 36 mil mulheres presas, 75% estão nas prisões por causa do tráfico de droga. Nos homens, a percentagem é um pouco mais baixa. Mas muitos dos crimes que os levam à prisão, como o pequeno roubo, também estão relacionados com a droga. Por outro lado, temos no Brasil uma política muito forte de aprisionamento. Devido à Copa do Mundo, em todas as cidades aumentou o número de presos. Tirou-se a pobreza da rua e jogou-se nos presídios. Isto é altamente grave. Tira-se a pobreza das ruas para que o turista não a veja. É uma situação injusta e mesmo criminosa das nossas autoridades da cidade, do estado e do país.
Julgamos que durante a Copa vai haver ainda mais prisões. Há muitos grupos que se preparam para as manifestações durante o mundial. Já há camisolas feitas. Algumas dizem: “População da rua – os primeiros excluídos da Copa”.
Mas o Brasil não é apaixonado pelo futebol?
Sim, mas todos esses movimentos estão a organizar-se para novas manifestações. A revolta da população mais pobre é enorme. Nos quatro primeiros meses do ano, queimaram-se três ônibus por dia em São Paulo. A cada oito horas, um é destruído. A população mais pobre está insatisfeita com a realidade que estamos a viver.
Mas há outros que estão contentes com a Mundial de Futebol…
A propaganda que saiu da Copa para o exterior é que o Brasil é um país bonito. E é, de facto. Que tem muita arte. E tem, é verdade. E que é o país da beleza feminina. Ora isto é propaganda à prostituição. Por outro lado, tudo o que foi feito, como os hotéis, foi a pensar nos estrangeiros ricos, não na população pobre, que nem sequer tem acesso aos estádios da Copa.

