À Luz da Palavra – Domingo de Ramos na Paixão do Senhor – Ano C A liturgia deste domingo apresenta-nos dois momentos aparentemente contraditórios, mas, na verdade, complementares: a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, como rei messiânico, e a sua paixão e morte. Um rei que entra em Jerusalém, ironicamente montado num jumento, e aclamado por crianças e povo simples, enquanto que os «grandes» se contorcem de raiva e de violência contra este humilde rei e clamam sobre Ele: “À morte, à morte!”. Porém, ao morrer na cruz, Jesus dá-nos a máxima lição, o último passo a caminho da vida nova que Deus, por Ele, nos propõe: a inteira doação da nossa vida por amor.
A primeira leitura apresenta-nos um profeta desconhecido, que é chamado por Deus a testemunhar às nações a Palavra da salvação. Os primeiros cristãos utilizaram este texto como chave para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para nos trazer a salvação/libertação. Toda a sua vida é dom e entrega a favor de todos e a sua glorificação mostra-nos que uma vida assim vivida não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova. Tenho coragem para fazer da minha vida uma entrega radical ao projecto de Deus e à libertação dos meus irmãos e irmãs?
A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Jesus. Ele não só prescindiu de qualquer tipo de orgulho, como não se valeu dos seus direitos de condição divina, para escolher a obediência ao Pai e o serviço às pessoas, até ao dom total da sua vida. Os valores vividos por Cristo são desprezados no nosso século, porque, na lógica humana, os grandes “vencedores” são os que enfrentam o mundo com violência, para atingir os seus fins. Paulo sabe que está a pedir à sua comunidade uma coisa difícil; mas que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a mim me é pe-dido um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor. Como resisto eu à sedução dos valores deste mundo? Serei eu capaz de testemunhar na minha vida a lógica de Deus?
O evangelho convida-nos a contemplar a paixão e a morte de Jesus, momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de nos libertar de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Celebrar a paixão e a morte de Jesus é mergulhar na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil e do qual brotou a vida plena, que Ele quis repartir connosco “até ao fim dos tempos”. Contemplar a cruz significa: assumir a mesma atitude que Jesus assumiu e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo; denunciar tudo o que gera ódio e medo; evitar que se continuem a crucificar outras pessoas; aprender a entregar a vida por amor. Viver assim pode-nos conduzir à morte; mas amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer, porque o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição. Tenho eu a mesma disponibilidade de Jesus para escutar os desafios de Deus e a mesma determinação em os concretizar no mundo?
Domingo de Ramos na Paixão do Senhor – Ano C: Is 50,4-7; Sl 22 (21); Fl 2,6-11; Lc 22,14-23,1-49.
Deolinda Serralheiro
