Cada pessoa tem a sua história. Mas a sua vida está traduzida em expressões, atitudes, modos de ser e agir, que, sendo diferentes, denunciam, normalmente, uma continuidade com semelhanças e sem roturas de maior. Nesta roda da vida em que todos circulamos, ninguém é igual a ninguém, ninguém esgota a escala da perfeição possível, ninguém substitui ninguém, ninguém está a mais. Porém, todos somos, por virtudes e defeitos, da família de todos, ao contrário de indiferentes ou desconhecidos.
Há sempre fases sucessivas de sentido comum e de leitura evidente. Podem tornar-se banais, mas também podem ser fonte de saberes que geram aprendizagens, de interrogações que forçam perguntas, de experiências que envolvem mistérios.
Como o correr apressado é a tónica que dá tom a multidões, a insensibilidade é a atitude mais frequente, ante as coisas que o tempo não corrói. Como o vogar à superfície é o modo mais comum para quem o pensar incomoda, a vida, mesmo no que tem de mais óbvio e linear, torna-se cada dia mais cinzenta.
Uma história indiana – a Índia é terra de sonhos, mistérios e dizeres ilustrativas – conta que a vida humana se processa em quatro fases: na primeira, aprendemos; na segunda, ensinamos; na terceira, retiramo-nos e habituamo-nos a calar; na última, começamos a mendigar…
Uma leitura sem valores consistentes e fechada à história, dá importância ilimitada à primeira fase, entra em contradição e rotura com a segunda, desconhece, progressivamente, a terceira, e incomoda-se com a última, mais agora que ela se está prolongando, sem se saber até quando. Estas fases são inseparáveis, entendem-se em continuidade, são de traçado repetível para todos. Só uma visão deturpada as pode marcar com importância diferente.
São fases de uma vida fecunda, porque a fecundidade só existe onde há vida. Cada qual com o seu fruto e sabor, a espraiarem-se no ambiente que respiramos e nos envolve, deixando a vida sem sentido e leitura possível se alguma delas é menosprezada. A sociedade precisa de todas para seu tempero. Todas exprimem a sua verdade e o seu valor e desequilibra-se a vida quando umas sem as outras. Não é apenas uma inversão preocupante da pirâmide de idades, mas o ruir de sentimentos, apreços e afectos.
Se na fase do começo domina a aprendizagem, esta persiste em todas as ou-tras. O povo sábio traduziu o seu saber secular quando disse: “Aprender até morrer”.
A fase do ensinar desvirtua a sequência, sempre que aparece gente que teima em ensinar, descuidando o continuar do aprender. Os que se retiram e calam, porque detrás sabem tudo, domina-os o sentimento de que estão a mais, quando, ao contrário, se lhes derem atenção, a sua é a fase mais enriquecedora da sociedade. O último grito de mendigo se traduz o eco pessoal das carências indispensáveis, de amor, carinho e atenção, é, também, o do último mestre a dizer à sociedade que quem despreza as pessoas ou as minimiza pela sua idade, não enriquece nunca só com bens materiais. É o abanão da natureza a acordar aqueles que a não sabem ler e, por isso, a não respeitam.
Se repararmos bem, as quatro fases realizam-se no interior da família. Ela é a célula viva e identificada de uma sociedade que não pode crescer, secando as suas raízes e não respeitando os seus ritmos. Os políticos e ideólogos que menosprezam a família ou a põem ao nível de qualquer aglomerado social passageiro, são sempre os coveiros acelerados do país que empobreceram. Por isso, não passam de animadores foleiros de festas barulhentas que terminam com o lançar do último fogo de artifício de um arraial sem história e sem outro futuro para além deste: para o ano, para os que cá estiverem, será igual.
