Do canto gregoriano à escola portuguesa de órgão

No 20.º Aniversário da morte de Júlia D’Almendra (1904-92) DOMINGOS PEIXOTO

Organista e professor, jubilado

3. O nível dos músicos

da Igreja. A palavra incómoda de Júlia d’Almendra

O desleixo na formação dos músicos para a liturgia e a resistência à sua profissionalização constituem um problema de ontem e de hoje. Ouçamos a palavra “incómoda” de Júlia d’Almendra em 1963, já lá vão quase 50 anos: “O reconhecimento do músico da Igreja é condição essencial para o levantamento do nosso nível musical sacro” (Ib. nº 26, p.6). E aponta o dedo à transigência das igrejas, “que musicalmente admitem o amadorismo, contentando-se eventualmente com os conhecimentos de ouvido dos curiosos musicais da paróquia”. A solução seria simples: bastava, em primeiro lugar, “que as nossas igrejas passassem a exigir aos seus colaboradores musicais a apresentação de certificados dos seus cursos, quer de música sacra, quer de órgão” e, em segundo lugar, “que o artista que se consagrasse profissionalmente ao serviço musical da Igreja – o que não exclui o espírito do apostolado – pudesse contar com as garantias consignadas pelo Sindicato dos Músicos a todos os artistas musicais” (Ib., p.9). Mais tarde, conclui num tom de justa indignação: “A Igreja precisa, mais do que nunca, de chefes de coro competentes, de professores conscientes das suas responsabilidades, de cantores devidamente preparados, de fiéis capazes de cantar, de organistas que saibam o que é um órgão e conheçam o seu magnífico repertório. Indispensável se torna, pois, conservar, defender e favorecer a produção e audição de música sacra digna desse nome e da Igreja. Há que reagir para vencer a onda de mediocridade que envergonha a cultura musical do nosso tempo, invadindo e profanando a casa de Deus” (Ib. nº 67, p.24).

4. Uma formação superior

para o organista

O projeto de Júlia d’Almendra para a música sacra tem, como ponto de partida, em primeiro lugar, o papel do canto gregoriano na música ocidental e a sua importância como fonte de inspiração da polifonia e da música de órgão (tema exposto em diversos artigos da revista Canto Gregoriano) e, em segundo lugar, uma visão clara sobre o ensino de órgão e o papel do organista na liturgia e na cultura musical, na Igreja e na sociedade. Assim, nos objetivos da nova escola a formação do organista tem um lugar especial: um curso mais aprofundado e abrangente, com diversas cadeiras complementares (harmonia, acompanhamento, improvisação…), que seria o único de nível superior em Portugal, antes e depois da sua integração na Escola Superior de Música de Lisboa (1985), até à abertura da área vocacional órgão, no curso de licenciatura em ensino de música da Universidade de Aveiro (1994).

Júlia d’Almendra estudou órgão durante a sua formação em Paris e teve contacto com a melhor tradição organística francesa. Estava, pois, bem consciente da importância deste instrumento na música sacra e do lugar central que o organista ocupa entre os músicos na liturgia. Daí, a aposta num curso superior, sempre regido por professores estrangeiros de elevado nível, à cabeça dos quais esteve Jean Guillou, então em início de carreira e atualmente uma figura cimeira do panorama organístico mundial. Mas outros prestigiados docentes regeram esta classe de órgão – Claude Terrasse, Geneviève de La Salle, Germaine Chagnol e Pierre Gazin – até que assumiu essas funções, em janeiro de 1961, o nosso querido mestre, professor Antoine Sibertin-Blanc, o mais português entre os organistas portugueses, que ao longo de quatro décadas de incansável labor artístico e inexcedível dedicação, formou a larga maioria dos nossos profissionais. Refira-se ainda o grande pedagogo Edouard Souberbielle, professor de quase todos os citados docentes na Escola César Franck ou no Instituto Gregoriano (Paris), que sempre apoiou Júlia d’Almendra, tanto no Centro de Estudos Gregorianos, como nas Semanas Gregorianas de Fátima. Outros artistas notáveis deram concertos em Portugal neste contexto, com destaque para o bem conhecido compositor cego Gaston Litaize (Basílica de Fátima, em 1953). De resto, a prova irrefutável da importância dada por Júlia d’Almendra à formação de organistas reside no facto de ter instalado em sua casa, em 1960, um órgão de tubos com 10 registos, 2 teclados e pedaleira.

Na próxima semana: A década de ouro da vida organística em Portugal. A construção da escola portuguesa de órgão