Partilha “Do casal ideal… à família que somos”. Com este tema geral, 80 casais das Equipas de Nossa Senhora (ENS) da Diocese de Aveiro estiveram em retiro espiritual de Quaresma. A partilha que nesta página as ENS quiseram proporcionar pode ser útil para todos os casais
“O sonho de Deus, a explosão do amor”. Este foi o primeiro tema de reflexão, inspirado no Antigo Testamento, a partir da Criação descrita no Livro dos Génesis. Com a frase “…Esta é osso dos meus ossos, carne da minha carne…”, sublinhou-se a expressão máxima do amor do homem pela mulher. Por ela deixaria pai e mãe para se tornarem numa só carne. Do Livro Cântico dos Cânticos, o versículo “Põe-me como um selo sobre o teu coração…” serve de súplica da mulher para que o amor dos dois seja eterno. Já a frase “Feliz o homem que tem uma mulher virtuosa…” (e o oposto também se aplica), do Livro de Ben Sira, serviu para ilustrar que não nos devemos deixar levar pela “fachada” ou “papel de embrulho”, mas pelo genuíno que existe em cada um de nós. Com o exemplo de Tobias e Sara, pedimos em oração para todos os casais: “Senhor fazei-nos chegar juntos, a uma adiantada e ditosa velhice” (Tb 8, 8).
“Cristo esteve (está) em Canã” foi o segundo tema de reflexão. Fizemos uma incursão no Novo Testamento. O Cónego José Paulo Abreu, que orientou o retiro, não deixou de referir a forma revolucionária como Jesus deu protagonismo à mulher, tendo em conta o contexto social e religioso da época. Jesus escolheu o encontro com a Samaritana para converter a cidade da Samaria. Este episódio tem um conteúdo pedagógico extraordinário: a água do poço (efémera) versus a Água da Vida (eterna). Outra mulher não menos importante foi Maria Madalena, uma pecadora que lavou e ungiu os pés de Jesus (esta unção era o prenúncio da Sua morte). Jesus não culpabilizou a mulher adúltera e ninguém se atreveu a atirar a primeira pedra. E foram as mulheres que primeiro chegaram ao sepulcro, testemunhando a Sua Ressurreição.
Voltando às bodas de Caná, quem deveria ter dado pela falta do vinho? O chefe de mesa, claro, mas estava distraído. Quem estava atenta? Ao 3.º dia da vida pública de Jesus (o 3.º dia é sempre crucial na História da Salvação), Maria viu que as bilhas estavam vazias. E o que fez? Foi falar com Jesus. Que lhe responde Ele? “Mulher ainda não chegou a minha hora”. Mas Maria acomodou-se? Não! Foi ter com os serventes e disse-lhes: “Fazei como Ele vos disser!” Mais tarde, é que o chefe de mesa notou “como o vinho era bom”. Não sejamos distraídos como o chefe de mesa e estejamos sempre atentos aos sinais, e nós também, tomemos este vinho, o vinho da alegria, o vinho que representa aquilo que nos permite estar abertos e disponíveis para os outros. Neste contexto, a falta de vinho representa o estar fechado, barricado, sem motivação, sem alegria… “Não tem vinho!” – que tristeza, que desânimo… “Que o vinho da alegria, do amor, da boa vontade, do diálogo, da perseverança regresse à vida de cada família”.
“Uma família solidária”. Com este tema fomos transformados em engenheiros civis, arquitectos, empreiteiros, carpinteiros, trolhas e decoradores para construir a casa/família solidária. Começamos pelos alicerces – o casal – , fortes para suportar, amparar, acolher, aconchegar a restante estrutura do imóvel com os cómodos necessários, que são os filhos, os pais (avós), os amigos, com muitas janelas e portas para estarmos virados para fora, para nos darmos aos outros, ao próximo. Diz o Cónego José Paulo Abreu que, para que o casal seja realmente forte, devia no dia do seu casamento tomar os votos dos monges: Obediência, Castidade e Pobreza, que cumpririam durante toda a sua vida. Obediência às promessas feitas um ao outro no momento da celebração do sacramento do matrimónio. Castidade, porque passámos a “pertencer” de corpo e alma um ao outro. Pobreza, porque à semelhança dos monges que não têm nada próprio – é tudo da comunidade –, também cada um de nós não tem nada próprio, tudo é dos dois. É importante “saber esquecer-me de mim para viver a realidade do outro”. O amor do casal é realmente exigente. Mas deve ser sempre encarado com optimismo, perseverança e uma grande confiança na providência e amor de Deus. Foram focados todos os sentimentos e atitudes necessários à formação da estrutura da casa, com especial ênfase para as janelas e portas. Foi lembrado a frase “Nunca rezes num quarto sem janelas”, para que possamos entender quanto é importante virarmo-nos para fora e darmo-nos ao nosso próximo.
Não faltaram os elementos decorativos da casa: a ternura, a meiguice, a sensibilidade no trato, a delicadeza, a afeição, o carinho e a simpatia. Foi referido também que há pessoas que para os outros são só simpatia e amabilidades e para os de casa são ásperas, antipáticas, só vêem defeitos. Citamos mais uma vez o Cónego: “A simpatia não é um produto de exportação”. A simpatia é para uso familiar, para e por todos.
“Ingredientes e vírus do amor”. Este tema sugeriu que fiquemos alerta e que tentemos conseguir todos os ingredientes para fortificar o Amor e para criar os anticorpos que resistam aos vírus suspeitos. A oração em grupo, na Capela, foi um momento particularmente alto. Estivemos em diálogo com Pai, um diálogo de perdão, de agradecimento, de esperança. No final cada casal acendeu a sua vela, como sinal de luz para a nossa vida.
“Educar: arte e inteligência”. Vale a pena recordar uma prece deste último tema de reflexão: “Senhor, dá-me coragem para mudar o que pode ser mudado, dá-me paciência para o que não pode ser mudado, mas dá-me acima de tudo discernimento para diferenciar cada um dos casos”.
Foi sugestivamente abordado com uma linguagem metafórica: as cores dos semáforos. O vermelho, o amarelo e o verde, respectivamente para alertar para os pontos negativos, os “assim-assim” e positivos da educação dos nossos filhos.
O retiro foi orientado pelo Cónego José Paulo Abreu, professor universitário, presidente da Confraria do Sameiro (Braga) e da Turel (cooperativa de turismo religioso). Cada tema de reflexão foi exposto com a profundidade, clareza e simplicidade dos que com sabedoria se despojam do supérfluo e se vestem com o verdadeiramente essencial. Foi uma verdadeira lufada de ar fresco que serviu para desempoeirar o espírito dos presentes, arrancando de quando em vez uma gargalhada geral à assembleia.
Em resumo, foi bom relembrar a importância do compromisso matrimonial e aferir dos valores da família numa perspectiva cristã. Viemos do retiro com uma esperança reforçada na misericórdia de Deus, mais confiantes como casal.
Que Deus seja sempre a “luz que guia” dos casais que tão bem organizaram este momento, das Irmãs que tão bem nos alimentaram e tão bem preservam o espaço da Casa Diocesana de Albergaria, onde decorreu o retiro. Ámen.
Aveiro 28
Equipas de Nossa Senhora
