Documento muito belo sobre a família, com exigências “realistas e progressivas”

O Bispo de Aveiro partilhou que também os bispos estão à procura de novos caminhos na pastoral familiar

“A alegria do amor”, exortação do Papa Francisco sobre o amor e a família, apresentada pelo P.e Manuel Morujão e pelo Bispo de Aveiro numa iniciativa dos padres de Ílhavo.

 

“Também para nós, bispos, não é fácil. Estamos a estudar o documento porque temos o dever de orientar. Parece-nos certo, contudo, que para integrar os casais [em segundas núpcias] na comunidade cristã, o ponto de partida é que a pessoa tenha fé”, disse D. António Moiteiro na noite em que se falou da exortação apostólica “A Alegria do Amor” (“Amoris Laetitia”), a 25 de novembro, no salão do Santuário de Schoenstatt, numa iniciativa do arciprestado e Ílhavo. O documento do Papa Francisco, escrito na sequência dos dois últimos sínodos dos bispos, em 2014 e 2015, fala do amor familiar e aborda as chamadas “situações difíceis”, isto é, quando os casados se divorciam e voltam a casar, não podendo, segundo as normas, voltar a comungar. Ora, a exortação apostólica vem afirmar que há vários níveis de comunhão eclesial e convida ao discernimento em cada caso com os olhos sempre postos na misericórdia.
O documento foi apresentado pelo padre Manuel Morujão, que realçou que tem “um tom muito positivo e pastoral”, referindo cerca de 30 vezes a palavra “alegria”. Sendo uma exortação “sobre o amor, não sobre a doutrina do matrimónio”, o documento “mantém sempre aberta a porta da esperança”, disse, porque “caridade não é a aprovação do mal; é a compreensão do mal para que o bem seja feito”. Afirmou o jesuíta, durante vários anos porta-voz dos bispos portugueses, que a “pastoral familiar é tarefa artesanal e não um pronto-a-vestir”. No breve debate que se segui, o assunto mereceu um lamento da parte da assembleia por a pastoral familiar ser uma das áreas mais frágeis nas paróquias, nos arciprestados e na diocese.
Manuel Morujão sublinhou que as exigências do documento são “realistas e progressivas”. “A família não é composta de anjos. Há um processo dinâmico e o matrimónio deve ser encarado como um caminho”, disse, observando que o amor de dois jovens que se casam tem de ser renovado ao longo da vida, pois as pessoas mudam, surgem os filhos, novas situações, todo um mundo de diferenças em relação ao momento em que se dá o “sim”.
Retomando a questão da integração eclesial dos divorciados recasados, o sacerdote afirmou que a solução não está em “dizer que está «tudo bem» e que «tanto faz», mas em apreciar o que é aproveitável”. A questão voltou a surgir no debate (“o sacerdote deve recusar a comunhão ou a absolvição a quem se sabe que é recasado?”) e o Bispo de Aveiro voltou a intervir para afirmar que “o acolhimento é fundamental” e que o dever é “ajudar na aproximação”. “São situações dolorosas e às vezes não sabemos como lidar”, disse. Alertou, no entanto, que há situações muito diferentes. Uma será, por exemplo, a daquele/a que se recasou por ter sido abandonado/a com os filhos, outra, por exemplo, será a do/a que abandonou a casa e os filhos. “Temos que mostrar que são queridos por Deus. Deus está interessado nas suas alegrias”, disse D. António Moiteiro, reforçando que os bispos estão a elaborar critérios “para ajudar a discernir”.

J.P.F.

 

“O Papa convida a ver sempre nas dificuldades os elementos positivos. Na união de facto, no casamento civil, nas segundas núpcias… há sempre bem, há sempre algum amor. E nós temos de ajudar a que cresça”.
D. António Moiteiro

 

 

 

 

 

“As dificuldades não são razão para separação. Há crises que se costumam verificar em todos os matrimónios. Mas há soluções. Há caminhos de amadurecimento”.
P.e Manuel Morujão