(31 Julho 1910 – 13 de Putubro 2008) 1. A Dona Amélia – não a posso tratar com intimidade, contudo a aproximação entre almas que se encontram dispensa alguma formalidade – era uma pessoa radiosa. Com ela tive vários encontros, infelizmente poucos, para aliviar a aridez da alma. Cada encontro, um bálsamo exigente. Encontros por solicitação do “padre disponível para atender a D. Amélia…”, e quando me coube ser recebido por ela, tudo era afabilidade. Depois de me afastar da sua presença, sei que ficava sempre pensativo. São poucas as pessoas que nos fazem pensar com suavidade e profundidade. Por norma temos uma sem a outra. Nela eram inseparáveis. Meditava na sã alegria; na pureza de coração, por ter um só desejo; na fidelidade a uma missão (segredo da fé verdadeira) exigente; na resiliência diante das limitações físicas e psicológicas; na sagacidade diante dos dissabores da vida; na austeridade perante os modismos, passados e presentes; eram alguns dos pensamentos que me alimentam depois desses encontros radiosos. Sabedoria amassada e condensada pela Vida, não havia melhor para a educação da alma e do corpo, em perfeita harmonia. Um lugar para cada sentimento, um sentimento em cada história. Agora permanecem como meditações intermináveis.
A 16 de Julho de 2007 deu-se um desses encontros, em que conversei mais tempo. Conversar era saber ouvir sem olhar o relógio. Com a D. Amélia isso era muito gostoso. Nesse encontro, que não esqueço, deu-me cinco fotocópias. Em jeito de pérolas autobiográficas, transcritas por um ouvido confidente. Duas manuscritas e três digitadas. Guardo “isso” como um tesouro. É desse tesouro que resumo e releio, partilhando o que o coração ousa abrir.
2. “Aos dias 31 de Julho de 1910 nasceu em Vila Chapadinha Amélia Carneiro de Almeida, filha de Joaquim Cirilo de Almeida e Elisa Carneiro de Almeida. Viveu muito feliz até aos seus 7 anos de idade”. Com a idade de sete anos faleceu a sua mãe. Foi criada com os irmãos Antenor Carneiro e Pedro Carneiro, pelo pai e madrasta. Começou logo a estudar de 1917 a 1923. Continua o texto dizendo que a juventude foi um “período maravilhoso”. “Conta ela que com a sua melhor amiga, Cota, eram muito cobiçadas pelos rapazes, mas sempre respondia com um não nas cartinhas que recebia”. O namoro, os divertimentos, e a vivência da sexualidade/afectividade, tudo era “com muito respeito”. “Dona Amélia namorou Raimundo Tiago de Almeida, seu primo e o seu 1.º e único namorado. Casaram-se no dia 18 de Julho de 1931 (…). Padre Eurico de Freitas celebrou seu casamento, e no civil o Juiz Tuíca”. Teve como filhos biológicos António Cleves e Francisco Florismar, mais tarde adoptou, Maria José, com 3 dias de nascida, filha biológica de sua irmã Francisca Garreto de Almeida Monteles. “No ano de 1937 fundou a sua escola particular, chamada Amélia Almeida, a única da região”. Ensinou sempre sem parar. E “somente aos 95 anos deixa a sala de aula”.
E ainda nos recorda dados precisos sobre a família: “Ao todo éramos 26 irmãos. Do primeiro matrimónio eram 11, do segundo 3, do terceiro 12. Do primeiro não existe mais nenhum, do segundo só existo eu, do terceiro existem 7. Que saudades deixaram no nosso coração”. E brotam mais confidências notáveis: “Eu sempre tenho na lembrança quando éramos pequenos. Quando estávamos no Baixão ao amanhecer o dia, meu pai dizia assim: – Meus filhos, vão para o curral tomar leite mugido. Nós íamos”. E com a alma dolorida, integrando a perda, acrescenta: “Quando era cinco horas ele chamava «Amélia, minha filha, levanta para fazer meu café!…» Meu Deus, eu não quero chorar não! Mas qual o quê, tenho que chorar, com saudades do meu pai e dos meus irmãos que já se foram!” É Amélia Almeida quem fala, em 28/01/2006.
3. Nós, contemporâneos de Dona Amélia, celebramos com ela viva em corpo, em 29 de Março de 2008, 70 anos do aniversário da fundação da Cidade de Chapadinha, no nosso Município. Hoje [14 de Outubro de 2008], ao cantar para ela o Hino da Cidade, celebramos a morte de Alguém maior que a própria Terra em que vivia. A “reserva moral” deixou de estar fisicamente. Mas a “reserva moral” é força espiritual eterna. Ela continua viva em espírito. É o silêncio. É a dor. É a saudade. É a ressurreição. Não é todos os dias. Temos que estar agradecidos pela sua Vida e Missão. A sua Fé ajuda-nos a compreender que todos somos uma mistura d’ “O Recebido”, d’ “o Construído” e d’”o Escrutado”. Recebemos um salário; recebemos uma educação; recebemos um diploma ou uma medalha; recebemos um NÃO; recebemos uma herança familiar e cultural. Recebemos muito e por isso devemos dar TUDO, o que temos e somos. Construímos a Justiça e Ternura, construímos a Guerra, os Sonhos, as Dores e os Amores. O nosso conhecimento do coração é a maior construção. Construímos muito e por isso devemos saber que, fora de Deus, NADA do que construímos, será lembrado para SEMPRE. Escrutamos, aqui infelizmente, escrutamos pouco (a maioria, talvez, pouquíssimo). Essa é a lição radiosa de D. AMÉLIA, ela ensinou-me a escrutar. “O escrutado” como o exercício vital, sobretudo, do-ser-padre. Quando pedia a minha bênção agarrava-lhe a mão e beijava-as quase em simultâneo. Escrutar como “voltar atrás”. De onde venho? Para onde vou? Sabia com claridade isso, da Origem e do Fim. Escrutar é difícil. É preciso escrutá-Lo, como o Sagrado Coração de Jesus, saber que Ele nos Sonda. Agradecido e agraciado pela sua vida simples, exigente e radiosa. A sua bênção celestial, D. Amélia!
