“Esta casa tem cumprido a sua missão de diálogo e respeito pelo mundo da cultura”, disse D. António Marcelino, durante a Eucaristia, na celebração dos 20 anos do Centro Universitário Fé e Cultura, no dia 23 de Setembro. O bispo emérito de Aveiro recordou que o CUFC surgiu para ser uma presença da Igreja no mundo da cultura, em “atitude de diálogo construtivo” e “respeitando as autonomias”.
“Fé e cultura têm autonomias, mas têm igualmente interligação. Para o cristão, a fonte é a mesma. Todo o dom perfeito vem de Deus”, disse. D. António Marcelino lembrou que, quando a cultura não tem no horizonte o ser humano, torna-se perigosa para o próprio ser humano, daí que necessite de ser iluminada pela fé.
Impulsionador do CUFC desde o início (era bispo coadjutor quando o CUFC foi criado, em 1987, e bispo residencial quando o edifício CUFC foi construído, em 1990), D. António Marcelino considerou que “ser cristão no pluralismo cultural, quando os valores estão diluídos, não é fácil”. Exige que a fé se aculture. “A fé tradicional, sem discernimento nem sentido crítico, não chega. Tem de estar enraizada na cultura, para ser forte no meio dos vendavais da própria cultura. Tem de estar aculturada”, afirmou.
D. António Marcelino sublinhou que o CUFC existe para ser sinal e presença cristã no mundo da cultura e do ensino superior, à semelhança de outras obras da Diocese noutros âmbitos – como o Carmelo de Cristo Redentor, porque “há valores transcendentes”; o Stella Maris, obra para o apostolado do mar; ou o ISCRA, “para dar sentido à formação cristã”.
Concluindo as suas palavras, o Bispo emérito disse: “A Igreja não faz tudo, nem pode fazer tudo. É sinal. Tem de trabalhar em rede, em perspectiva sinodal, com a colaboração de muitos e o respeito por todos”. E recordou palavras que um dia Maria de Lourdes Pintasilgo lhe disse e que alertam para a necessidade e urgência da presença cristã na cultura: “Acorde! A Igreja está a tornar-se insignificante no verdadeiro sentido da palavra!”
TESTEMUNHOS
O Centro Universitário Fé e Cultura é actualmente dirigido pelo Pe Alexandre Cruz, com a colaboração do Pe Georgino Rocha. A programação da casa sempre foi feita por uma equipa de trabalho, normalmente constituída por alunos, professores e funcionários da Universidade de Aveiro ou de institutos superiores. O Correio do Vouga falou com alguns destes cristãos que, ao longo dos anos, integraram a equipa do Centro Universitário.
Joana Condesso
Professora de Biologia no Ens. Secundário
Frequentou o Centro e integrou a equipa 1991 a 1997
“Missão” resume o significado do CUFC para mim. Cheguei à Universidade de Aveiro com um sonho e parti com uma missão. O sonho que nos leva à universidade é a realização pessoal. Mas, com o acolhimento que senti no CUFC, com as vivências proporcionadas por este centro, a par da formação académica, fui assumindo a educação como missão.
Outro aspecto importante deste Centro Universitário: a diversidade de grupos e movimentos que o frequentam, ao contrário de outros.
Manuel António Coimbra
Professor da Universidade de Aveiro
Integrou a equipa CUFC de 1987 a 1993
A implantação de um Centro que acolhesse alunos, professores e funcionários, foi um desafio colocado por D. António Marcelino a um grupo de assistentes da Universidade. O CUFC significa um esforço de muitos, mas gostava de destacar o Pe Arménio Costa (1933-1997). Foi o grande impulsionador.
Entre as várias actividades, recordo um curso bíblico orientado pelo Pe Arménio. Foi tanta a adesão que o curso teve várias edições.
Temos de lembrar, também, a Irmã Maria do Céu (religiosa do Sagrado Coração de Maria, responsável da Casa de Espiritualidade Jean Gailhac, na Costa Nova). Com os seus cânticos, unia-nos. Não nos deixava esmorecer. Incentivava-nos à luta de cada dia.
Luís Botelho Ribeiro
Professor da Universidade do Minho
Integrou a equipa CUFC em 1987 e nos anos seguintes
Para mim o CUFC significou a entrada na família universitária, o aprofundamento da fé. Entrada na família universitária, porque o CUFC, mesmo antes de ser edifício, proporcionou um convívio muito bom entre professores e alunos, diferente do ambiente de aulas. Cheguei aqui como caloiro e fui bem acolhido por professores como Carlos Borrego. Encontrávamos um ambiente aqui que não existia em mais lado nenhum.
Significou aprofundamento da fé, porque os cursos, as conferências e as palestras proporcionaram crescimento para quem, como eu, tinha apenas a catequese tradicional.
Joana Amaral
Estudante de Educação de Infância
Integra a equipa do CUFC deste 2004
O Centro Universitário é a minha segunda casa, embora eu seja de Aveiro. Passamos muito tempo na Universidade e sabemos que temos sempre aqui espaço e pessoas que nos acolhem. Sentimo-nos bem.
Das acções, destaco os vários projectos de voluntariado. O voluntariado [hospitalar, prisional, de explicações a crianças…] faz-nos sentir úteis, envolvidos no meio. Vamos ao encontro de outras pessoas. Possibilita-nos um olhar mais vasto sobre a sociedade à nossa volta. O estudo é importante. Mas há mais do que isso.
Carlos Borrego
Professor da Universidade de Aveiro
Integrou a equipa do CUFC em1987 e nos anos seguintes
Com a experiência que tinha da JUC (Juventude Universitária Católica), no [Instituto Superior] Técnico e na fase do doutoramento, foi uma agradável surpresa ser convidado por D. António Marcelino para desenvolver a estratégia de pôr o sal da Igreja no mundo universitário de Aveiro. Fizemos várias reuniões que foram tempos de aprendizagem e de relações de amizade e que vieram a dar origem a esta casa.
Em termos de UA, foi muito interessante o modo como o CUFC se afirmou num contexto por vezes altamente reactivo às expressões religiosas. O CUFC conseguiu afirmar-se e convencer a comunidade. Hoje é parte integrante do ambiente académico.
