Duas novidades de Mons. João Gaspar: um livro de memórias e outro sobre os bispos e Santa Joana

Monsenhor João Gaspar lança “Encontros e Encantos” no dia 11 de maio, às 18h30, na antiga Capitania
Monsenhor João Gaspar lança “Encontros e Encantos” no dia 11 de maio, às 18h30, na antiga Capitania

Monsenhor João Gonçalves Gaspar publicou há semanas “Caminhar na Esperança – II”, onze anos depois do primeiro volume de memórias, e prepara-se para lançar mais um livro sobre Santa Joana. Na proximidade do Dia Mundial do Livro (23 de abril), falámos com o vigário geral da Diocese de Aveiro e membro da Academia Portuguesa de História sobre estes seus dois novos livros e outros que o influenciaram. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

 

CORREIO DO VOUGA – O Monsenhor publicou há semanas “Caminhar na Esperança – II” e prepara-se para publicar um novo livro sobre Santa Joana. Como surgiu aquele “Caminhar na Esperança – II”?
JOÃO GONÇALVES GASPAR – Em janeiro de 2004, na ocorrência do quinquagésimo aniversário da minha ordenação de presbítero, publiquei o livro “Caminhar na Esperança”. Tratava-se de uma efeméride que eu não podia deixar passar sem a viver em atitude de oração agradecida a Deus e sem rememorar em amizade tantas e tantas pessoas, começando pelo meu pai, pela minha mãe e pelos meus irmãos e irmãs. Por isso, anotei aquelas recordações de criança, de jovem e de adulto, que nunca se apagarão da minha memória. Também lembrei, num gesto de reconhecimento inesquecível, muitos encontros que marcaram a minha vida. Agora, passados mais onze anos, pretendi atualizar o referido texto, sempre motivado pelos mesmos sentimentos.

 

CAMINHAR NA ESPERANÇA II
João Gonçalves Gaspar
Tempo Novo
152
7,50 euros

 

Divide o seu livro em três partes, “No caminho dos anos”, “No caminho das pessoas”, “No caminho da gratidão”. Podemos dizer que na primeira parte fala dos seus afazeres (parte mais biográfica), na segunda, das pessoas com quem se cruzou, e, na última, da sua relação com Deus. Ou seja: o eu, os outros e Deus?
Como se vê nas páginas deste livro, o esquema seguido foi o mesmo do primeiro; por isso, é que o título é idêntico. Contudo, ao “eu” e às “pessoas” acrescentei uma terceira parte, onde ousei temerariamente comunicar algo da minha experiência com Deus. Pensei que a confidência desta simples reflexão, em prece humilde, talvez ajudasse um ou outro leitor na sua relação espiritual e humana com Deus, mas com a convicção de que a fé não é uma rendição cega perante a evidência, mas a aceitação livre a uma chamada de Deus no nosso íntimo.
Dentro de dias, aparecerá mais um livro sobre a princesa Santa Joana. O que nos pode desde já dizer sobre esta obra?
Ao redigir a biografia da nossa padroeira no livro editado em 1981, ambicionei dar a conhecer algo da vida e da virtude de uma singular “aveirense” do século XV. Todavia, fui dando conta da presença de bispos ao longo dos seus anos, desde o batismo até à morte; fui também deparando com a devoção de muitos outros, incluindo os que escreveram sobre ela ou a veneraram e continuam a venerar em saudosa memória. Foi por isso que resolvi alinhavar estas notas, aos poucos e durante algum tempo, às quais logo dei o título de “Encontros e Encantos”; simultaneamente fui-as ilustrando com mais de trezentas gravuras, quase todas em cor.
Concluí facilmente que Santa Joana não apenas foi preiteada por membros da hierarquia da Igreja como filha de D. Afonso V e irmã de D. João II, mas também por eles homenageada em devoção ao longo dos séculos futuros. Com esta publicação, que se espraia por trezentas e catorze páginas e cuja capa saiu do talento e da arte de Jeremias Bandarra, também quis comemorar o quinquagésimo aniversário da oficialização da princesa como padroeira principal da cidade e da diocese de Aveiro.

 

Encontros e Encantos
João Gonçalves Gaspar
Tempo Novo
316 páginas
Ainda sem preço definido

 

Quando será o lançamento deste livro?
O lançamento de “Encontros e Encantos” está previsto para as 18h30 do dia 11 do próximo mês de maio, véspera do nosso feriado, no auditório da Assembleia Municipal de Aveiro, no edifício da antiga Capitania do Porto. A apresentação será feita pelo prof. doutor Jorge Carvalho Arroteia, que gentilmente e com muita satisfação aceitou o respetivo convite. Pelo que me consta, os Serviços da Câmara Municipal de Aveiro pensam em incluir o anúncio no programa das festas da Cidade, além de constar no da Irmandade de Santa Joana Princesa.

 

Sabemos que o Monsenhor não para. O seu dinamismo, no ano passado, com oitenta e quatro anos de idade, quando assumiu a administração da diocese de Aveiro, na transição de D. António Francisco para D. António Moiteiro, espantou muita gente. Tem neste momento algum projeto de investigação e de escrita?
Os meus tempos livres, embora escassos e no meio de preocupações e afazeres do ministério pastoral na diocese, têm sido ocupados principalmente pela investigação e escrita sobre Aveiro e sobre Eixo. Porém, ainda que à margem, tenho divagado sobre outros temas, como o “Mártir do Holocausto” (2001), “Recordando uma Peregrinação” à Terra Santa (2003), “Macieira de Alcoba – Ermida e Imagem de Nossa Senhora de Fátima” (2006), “Pio XII – Defensor do Homem” (2011) e a “Primeira República Portuguesa e a Igreja Católica” (2011). Mas – como disse – a minha natural inclinação vai para o desejo de divulgar a nossa história, explanando-a em diversos textos – uns que foram impressos em dezenas de livros e outros que foram lidos em vários areópagos, nomeadamente na Academia Portuguesa da História.
É evidente que, no decorrer dos séculos, evidenciaram-se muitas pessoas – homens e mulheres – que eu jamais poderia esquecer. Se me tenho ‘entretido’ com Santa Joana, também não esqueço muitos outros aveirenses e eixenses. Dentro deste plano, ultimamente a minha atenção restringiu-se ao século XVI e deparei com o primeiro gramático português, o padre Fernão de Oliveira. É uma figura invulgar, cuja vida, cheia de proezas, poderia servir de tema para qualquer filme de aventuras. Vou pensando nele… e paulatinamente vou escrevendo.
Ponderando comigo mesmo, tenho a plena confiança – senão a firme certeza – de que outros autores e outras autoras são e serão mais eruditos do que eu, modesto aprendiz, em estudar e em testemunhar a vida e a memória de muitos aveirenses que, depois de obras valorosas, se foram da lei da morte libertando.

 

 

Os livros da vida

 

CORREIO DO VOUGA – Esta entrevista vai sair a público na véspera do Dia Mundial do Livro. Deixe-nos colocar algumas questões sobre livros. Da Bíblia, que, como sabemos, é uma biblioteca, qual o livro que gosta mais de ler?
João Gonçalves Gaspar – No Antigo Testamento, o livro de que eu gosto mais é o dos salmos, onde disponho de muitos textos para o meu diálogo com Deus. E no Novo Testamento, sempre preferi o evangelho segundo S. João, porque descubro nele muitas reflexões pessoais do autor, que mais me parecem da Virgem Maria, a ele confiada pelo seu Filho Jesus, na hora martirizante do Calvário. São os dois livros da Bíblia preferidos por mim para ler, reler e meditar, sem menosprezar qualquer um dos outros, porque todos foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo.

 

Pondo de lado a Bíblia, que livro o influenciou mais, como pessoa, como padre, como historiador?
Como é fácil de calcular, foram alguns sacerdotes, mestres e livros que me influenciaram ao longo da minha vida. Entre estes, não posso esquecer não apenas um, mas três; foram eles – “Le Fou de Notre Dame”, publicado em 1948, em que Maria Winowska me deu a conhecer o padre Maximiliano Maria Kolbe, o mártir do holocausto em Auschwitz, hoje canonizado; li-o durante as férias estivais de 1951… e esta leitura, feita aos vinte e um anos de idade e antes de iniciar o terceiro ano dos estudos teológicos, mais me estimulou a prosseguir corajosamente no meu projeto sacerdotal. Aí por 1960, entusiasmei-me com “Méditation sur l’Église”, que folheei várias vezes, saído da pena do padre jesuíta Henri de Lubac, mais tarde cardeal; várias das suas ideias apareceriam a influenciar alguns dos principais documentos do Concílio Vaticano II. Mais tarde, à volta de 1963, li e reli os dois volumes de “Le Mystère de Jésus”, da autoria de P. R. Bernard, O.P.; foi uma oportunidade para conhecer algo mais sobre Cristo, o Filho de Deus, a fim de O viver na fé.
No pendor para a história de Aveiro, sinto-me agradecido a diversos amigos e mestres que me entusiasmaram nesse sentido, como Eduardo Cerqueira, dr. José Pereira Tavares, dr. António Christo, dr. Francisco Ferreira Neves, D. Manuel de Almeida Trindade e dr. David Christo, além de outros. Quanto a publicações, fui lendo os livros de Marques Gomes, os artigos de Rangel de Quadros, os trabalhos do dr. António Gomes da Rocha Madaíl, a dissertação histórico-jurídica sobre o almoxarifado de Eixo do dr. José Correia de Miranda (1866), a memória sobre a vila de Eixo do dr. Venâncio Dias de Figueiredo Vieira e vários jornais e revistas, como o “Arquivo do Distrito de Aveiro”, publicado de 1935 a 1972.

 

Dos seus mais de trinta livros publicados, qual o que lhe deu mais gosto escrever? Algum deles lhe trouxe qualquer dissabor?
Enuncio não apenas um mas três títulos entre todos os outros, a que mais me apliquei com particular afeição: “A Diocese de Aveiro – Subsídios para a sua história” (1964); “Lima Vidal no seu tempo” (1974); e “A Princesa Santa Joana e a sua época” (1981). Posso afirmar que nenhum dos meus livros me trouxe qualquer dissabor.

 

E, para terminar, que livro leu nos últimos tempos e que nos aconselha?
Na resposta a esta pergunta também não me limito apenas a um livro, porque folheei vários. Sem desconsideração por qualquer um, tomo a liberdade de aconselhar três; mas isto é apenas uma opinião muito particular. São eles: “Paciência com Deus”, do padre dr. Tomás Halik (2013), “Humanizar a Sociedade”, do padre doutor Georgino Rocha (2013) e “O Futuro da Igreja”, do padre dr. Fernando Calado Rodrigues (2014).