A ordem-provocação-estímulo foi do Mestre: “Faz-te ao largo”. E dada a quem percebia da pesca e tinha trabalhado toda a noite em vão. Só uma ilimitada confiança nAquele que ordenava poderia criar disponibilidade interior para obedecer sem recalcitrar. E foi mesmo isso que aconteceu!
Há ocasiões, na vida das pessoas, na vida das instituições – também na vida da Igreja! -, em que, sem abdicar do exercício ponderado da inteligência que o Senhor nos deu, o coração tem de ser ousado. Aliás, a decisão da fé – que não é a visão clara! – reclama sempre este risco da ousadia da esperança. Sempre que assim somos capazes de avançar, não somos desiludidos, mesmo que os olhos do mundo nos vejam como temerários.
Ocorrem-me duas atitudes bem expressivas desta ousadia: a convocação do Concílio II do Vaticano, pelo Beato João XXIII, e a convocatória do Primeiro Encontro Inter-religioso, de iniciativa de João Paulo II. Ambas deixaram muita gente perplexa, a começar pelos mais próximos colaboradores destes Pontífices. Não faltou quem fizesse esforço para “recuperar” e suster o ímpeto de tais decisões.
E como seria hoje a Igreja sem o Vaticano II? Como seria hoje a vida das nossas Comunidades sem a eclesiologia de comunhão, sem o direito-dever de apostolado dos leigos, sem o reconhecimento da autonomia secular das realidades terrestres, sem o reconhecimento da vida carismática do corpo eclesial…
Seria possível, hoje, um chefe muçulmano egípcio colocar-se ao lado das comunidades cristãs perseguidas no Iraque ou na Índia? Seria pensável uma convivência pacífica entre cristãos católicos e radicais islâmicos na Faixa de Gaza?…
O Espírito não está no “trovão” ou no “vento tempestuoso”. É antes uma doce brisa, que passa muitas vezes imperceptível nas coisas simples, nos momentos comuns, nas pessoas mais humildes… Certo, porém, é que as tempestades – de trovoadas e ventos ciclónicos, algumas vezes, – integram o desenrolar dos fenómenos da Natureza e abrem o caminho aos longos períodos de serenidade, de brisas suaves e frescas.
É necessário, contra todas as lógicas das “noites de trabalho em vão”, o arrojo de abrir manhãs de esperança, fazendo-se ao largo da preocupação constante da “casa arrumada”, da “vida regulamentada” e disciplinada. Acreditar na “sonda” do Espírito, capaz de radiografar os corpos opacos de pessoas e correntes da história, para mostrar o “kairós” (tempo oportuno) que, em meio a perturbações e dúvidas, o Senhor nos oferece como ordem, provocação, estímulo: “Duc in altum”!
