E a Conceiçãozinha dos ovos moles da Costeira?

Colaboração dos Leitores – Ainda os “Grandes Aveirenses” Ao Correio do Vouga chegaram vários comentários sobre os “Grandes Aveirenses”, uns agradecendo a iniciativa e outros acrescentando mais alguns nomes à lista: D.ª Conceição Maria dos Anjos, General João de Almeida, Fernão de Oliveira e Alberto Souto. Hoje referimos apenas a “Conceiçãozinha dos ovos moles da Costeira”.

Sobre D.ª Conceição Maria dos Anjos, que faleceu no dia 9 de Outubro de 1953, escreveu-nos a Irmã Conceição Gomes, Missionária Reparadora do Sagrado Coração de Jesus, a viver no Porto:

“Fiquei deveras surpreendida e entristecida ao ver logo na primeira página do CV as que foram consideradas figuras mais notáveis de Aveiro, tendo sido olvidada a mulher que orou, trabalhou, sofreu pela restauração da Diocese – D.ª Conceição Maria dos Anjos.

De resto, já o Mons. Gaspar cometeu o mesmo erro no livro sobre a Diocese e eu escrevi-lhe imediatamente a reparar-lhe, ao que ele respondeu que, de facto, se não fosse ela, a Diocese não teria sido restaurada e que iria trabalhar para que uma das ruas da cidade tivesse o seu nome. Eu não digo que a Diocese não teria sido restaurada, mas teria demorado muito mais tempo.

Mas que era a D. Conceição da Costeira, como fora conhecida? Uma enjeitada por mãe solteira envergonhada, que, após ter sido criada por uma ama de Bolfiar (Águeda), veio parar a um asilo de Aveiro e, por fim, à primeira Casa dos Ovos como empregada e, por morte da patroa, como dona.

Como conheceu a ideia da Restauração da Diocese não sei, porque, quando eu lhe fui entregue no dia 7 de Janeiro de 1931, já ela rezava e trabalhava por essa intenção.

Fazia todos os anos duas ou três novenas de retiro na igreja da Glória, hoje Sé, na oração e no jejum. Saía de casa ao Angelus e voltava às Trindades; apenas lhe levavam uma pequena refeição ao meio-dia. À noite, tomava chá e um pão seco.

Tinha uma grande devoção ao Espírito Santo, que sem dúvida a conduzia, e vivia muito unida a Deus.

Para escrever ao Núncio Apostólico, recorria à Superiora do Colégio do Coração de Maria, que lhe passava para francês o que ela dizia; e assim foi respondendo às exigências da nunciatura. Sofreu, porque se via só a lutar por causa tão justa. Se a parte pertencente à Diocese do Porto tinha padres e seminaristas bem formados, a parte de Coimbra era um caos, a começar pela cidade… Isto afligia-a profundamente. O D. João Evangelista apoiou-a bastante; e logo ofereceu, ele mesmo, a casa para o futuro Bispo, fosse ele quem fosse. Após a Restauração, ele só lhe recomendou: Agora, silêncio… E tanto silêncio que, após a sua morte, os aveirenses nem sabem quem ela foi e qual o seu papel mesmo no campo social, que eu agora não descrevo… Deus serve-se do que é pobre e fraco para realizar grandes obras para a salvação da humanidade… (…)

Creio que expliquei o necessário para que Aveiro não esqueça quem tento contribuiu para a sua grandeza espiritual”.

O Correio do Vouga interrogou Mons. João Gaspar, visado na carta, sobre a Dª Conceição Maria dos Anjos. O vigário-geral da diocese e historiador revelou ao nosso jornal que tem feito variadas referências à mulher que, de facto, teve uma influência popular na Restauração do bispado.

Na obra de Mons. João Gaspar, “A Diocese de Aveiro – Subsídios para a sua história” (de 1964), podemos ler na página 252 o que D. João Evangelista de Lima Vidal escreveu sobre esta mulher, em 1957. Diz o bispo restaurador: “Uma doceira, a Conceiçãozinha dos ovos moles da Costeira [actual rua de Coimbra], à falta de grande pena para escrever, resmungava a todo o instante na pastelaria o seu desamor e punha a sua pequena influência, assim pessoal como industrial, ao serviço da revindicta. Esta mulher, um pouco excessiva talvez, como são em geral as pessoas génio apanhadas por um ideal, foi uma daquelas de quem eu mais senti outrora os auxílios e de quem agora mais estou a sentir a saudade e falta”.

No terceiro volume de “Lima Vidal no seu Tempo”, várias passagens são dedicadas à doceira.

Finalmente, e apenas para ficarmos nas referências mais significativas, Mons. João Gaspar dedica-lhe duas páginas em “Caminhar na Esperança” (“Benfeitora Aveirense”, pág. 242-243).

Enquanto elemento da Comissão de Toponímia da Câmara Municipal de Aveiro, Mons. João Gaspar revelou ainda que nos projectos de urbanização de Forca-Vouga está previsto que uma rua venha a ter o nome de Conceição Maria dos Anjos.

J.P.F.