E agora as boas notícias

Dias positivos 1. “Isto está cada vez pior. Aonde vamos parar? Anda tudo desorientado. Que mundo é este em que vivemos?” É difícil ter uma conversa sem que estas frases sejam ditas, como se vivêssemos no pior dos mundos possíveis. Os jornais, as televisões, as rádios vivem das más notícias e dão-nos a ilusão que tudo vai mesmo mal, está tudo perdido, não há salvação possível. As boas notícias não são notícia – diz-se nos meios jornalísticos. Por cada árvore que cai, muitas outras crescem. Mas as que crescem, crescem em silêncio. A que cai, faz um estrondo. Essa é que é notícia.

2. Diz-se até que um pessimista é um “optimista bem informado”, como se infor-mação levasse necessariamente a uma visão negativa do mundo. Neste contexto, o optimista só pode desempenhar um papel de ingénuo por acreditar que há aspectos positivos em tudo. O optimista vê uma luz ao fundo do túnel e acredita na saída. O pessimista agoira: “É um comboio e vem contra nós!”

Tenho cá para mim que o pessimista é que é um opti-mista mal informado. Ou parcialmente informado. Se há tantos crimes e dor nas páginas dos jornais e na abertura das notícias da televisão, não é porque haja mais criminalidade. É porque são mais visíveis e menos toleráveis. Agora já não é possível esconder tão bem ou durante tanto tempo. O mundo não está pior. Estamos é mais atentos.

3. Numa magnífica crónica sobre as confissões de um jornalista, Martin Descalzo (padre e jornalista espanhol, já falecido) contava: “É notícia o assassino e não a mãe que ama, quando sabemos que há milhões de mães dedicadas por cada assassino que se conhece.

Contamos a história do salteador, mas não a do sábio; ou a do pai anormal que bate no filho, mas não a daquele que passa doze horas por dia à procura de comida para os seus” (Razões para a Esperança, Ed. Missões).

4. Vamos iludir as más notícias? Não. Não é preciso fazer como a senhora que, ouvindo pela primeira vez um padre falar sobre a morte de Jesus (o que não admira, quando uma sondagem na Holanda revela que a maior parte dos holandeses já não sabe o que se comemora no Natal, então quanto à Páscoa…), no final vai ter com ele e diz-lhe, impressionada:

— Esta história tão triste aconteceu há quase dois mil anos, não foi?

— Sim.

— Foi há tanto tempo. Tem a certeza que acabou como contou? Não terá acontecido de outra maneira?

Ser optimista não é iludir as más notícias. Mas é ter a certeza que há mais do que isso e não tomar a parte pelo todo.

O Evangelho, a Boa Notícia, tem uma que é terrível, a da morte do protagonista. Mas não é a última.

5. Por desafio do director do Correio de Vouga, inicio esta colaboração quinzenal. Os jornais (mas não o Correio do Vouga) vivem muito das más notícias.

Desejo com este espaço dar conta de coisas que me vão encantando: ideias, pessoas, livros, tendências, acontecimentos.

Espero contribuir para dias mais positivos.