E Deus criou a Europa

Livro Quando algumas tendências políticas e a indiferença geral dos cidadãos contribuem para apagar Deus da vida social e dos espaços públicos, é curioso que venha de França, o país mais dado ao laicismo de sinal negativo, um livro que diz basicamente isto: Deus construiu a Europa. Deus não é europeu, mas sem Ele a Europa não se aguenta. Ou pelo menos perde muito.

Que Deus tenha construído a Europa, isto é, que o cristianismo tenha sido o factor crucial da identidade desta porção de terra que, em termos físicos, é simplesmente a parte atlântica da Ásia, prova-o a história da Europa. O Deus cristão irrompe (no Império Romano), é sublinhado (Idade Média), discutido (Reforma), reelaborado, desconstruído e negado (racionalismos, cientismos, ateísmos), exportado e imposto (descobertas, colonialismos)… Veja-se apenas umn exemplo, o momento em que a palavra Europa ganha cidadania (já existia, era nome de deusa grega, nas não era usada):

“O Papa Pio II (1405-1464) tenta constituir esta unidade europeia projectando uma nova cruzada após a queda de Constantinopla. Fracasso total, os príncipes têm a cabeça noutro lado. Ele tenta também convencer Maomé II da oportunidade de uma aproximação, sonhando realizar com ele o que os cristãos do Império tinham conseguido com Constantino no século IV, convertê-lo. Se o sultão aceitar, o Papa promete-lhe a «admiração de toda a Grécia, de toda a Itália, de toda a Europa». A palavra Europa tinha sido lançada. Pio II será o primeiro Papa a utilizar tão frequentemente o substantivo «Europa» e o adjectivo «Europeu». Pode dizer-se que Deus fez a Europa através da cristandade e que um Papa lhe deu o seu nome”.

“Deus e a Europa” não se detém no passado. Escrito já depois da eleição de Ratzinger, que escolheu para seu nome de Papa o de um “pai da Europa” (S. Bento), e do “não” francês ao tratado constitucional, este livro de um jornalista e ensaísta francês equaciona a entrada da Turquia, constitucionalmente laica, mas socialmente islâmica, e a globalização de Deus (que, obviamente, não é europeu), além do futuro do cristianismo nesta parte do mundo.

A Europa não é cristã apenas nas suas origens. É-o também por causa dos seus valores e das suas paisagens. Deus continua a construir a Europa, mesmo que esta continue a desconstruí-lo, com o individualismo e o relativismo. “O cristianismo continuará a ser um componente da identidade europeia e esta nada terá a ganhar negando-o” (p. 181).

Deus e a Europa

Jean Boissonnat

Gráfica de Coimbra – 2

210x145mm, 190 páginas