Pensar a Vida – Quatro notas sobre o resultado do referndo LUÍS SILVA
O dia 11 de Fevereiro
À medida que a noite se ia adiantando, tornava-se cada vez mais claro que o Sim ao aborto livre venceria. À tristeza de ver desabar uma confiança profunda na sensibilidade dos portugueses à vida não nascida, juntava-se, porém, a certeza de tudo ter feito para que outro fosse o resultado. Nesta mistura de sentimentos, muitas vezes me assaltaram imagens de um belíssimo filme que fala de vida, da sensibilidade e insensibilidade colectiva face aos mais frágeis. Falo de a Lista de Schindler e de um dos momentos mais densos de todo o enredo dramático, genialmente construído por Steven Spielberg: já perto do final, Schindler, prestes a fugir para o exílio, por motivo de ter terminado a segunda guerra mundial, promovida pelo regime nazi a que ele pertencia, começa a contar as vidas que ainda poderia ter salvo em troca de um anel ou de um automóvel.
A noite de 11 de Fevereiro teve a densidade de uma partida rumo a um exílio numa terra onde parecem não nos desejar mas onde insistimos que somos dignos de estar… Teve o condão de nos levar a reflectir sobre o que fizemos e dissemos… Foi hora de renovar o desafio… Partimos sem sair, porque a vida que pede a nossa resposta permanece no lugar de sempre.
Os dias antes de 11 de Fevereiro
Nesta revisão do que fizemos e dissemos, não pude deixar de pensar como pôde tornar-se insensível o coração dos que sempre estiveram atentos aos mais frágeis. Quem endureceu os seus corações?
Poderia seguir a simplista resposta de que todos estamos tomados pelo individualismo que assoberba a sociedade actual. Talvez não estivesse longe, mas o individualismo fecha-se sobre si próprio e não atrai, não cativa. Não foi o que vimos, ao longo da campanha. O «sim» andara como se defendesse uma causa humanitária, «a última causa» – diziam alguns.
Pois bem, de facto, se é certo que o que o «sim» defendia era um redondo individualismo, em que cada homem e mulher ficam ainda mais fechados sobre si e com o seu sofrimento, não foi com essa capa que a questão se apresentou. Com números manipulados, mentiras embrulhadas em papel de rebuçado de verdade, com auto-estimas feridas e complexos de inferioridade perante os outros países explorados até à exaustão, criou-se uma necessidade que parecia exigir uma resposta, como se abortar fosse uma fatalidade que caísse sobre a cabeça de alguém, qual pneumonia ou tuberculose.
E a vítima? Quem falou dela? Vale a pena lembrar que, um pouco por todo o país, os cartazes que mostravam o feto às dez semanas eram destruídos com tamanha violência que parecia resultado de uma ira profunda… O rosto das vítimas incomoda, bem certo!!!
A noite de 11 de Fevereiro mostrou-me, nesta mistura de sensações e sentimentos, que é preciso acordar desta anestesia colectiva, que faz devorar acriticamente o que ecrãs do mundo abertos para o interior das nossas casas nos dizem ser a realidade que tomamos como coincidente com a verdade… A verdade continua mais além…
O dia depois de 11 de Fevereiro
Não seríamos coerentes connosco, se, agora, nos rendêssemos a um resultado de um referendo que é desfavorável à sustentação de que o Estado deve proteger todos, mesmo todos, qualquer que seja a sua idade.
Se o Estado se rendeu, essa não poderá ser a resposta de todos os que reconhecem na vida de cada humano um dom que não pode ser propriedade de ninguém.
O trabalho que já vem sendo desenvolvido pela Igreja, desde sempre, e pelos movimentos de defesa da vida (em particular, neste caso, desde 1998), deve ser reforçado. A onda que todos pudemos ver, escondida longe das câmaras das televisões, não pode sair abafada, mas ganhar a força de um tsunami pacífico. Em cada diocese onde estivermos, temos de criar ou apoiar (já são mais de 50 as associações de apoio à vida que necessitam de associados e donativos para conseguir levar a bom porto o seu trabalho…) estruturas de acompanhamento de cada grávida que se sinta só, desamparada, de cada mulher que foi empurrada para o aborto por pressão de patrões ou companheiros ou família… É hora de salvar vidas, porque a lei que permite abortar a vida até às dez semanas ainda não abortou a vida que jorra do interior de todos os que se sabem movidos pela VIDA.
PS: O combate que, hoje, se trava nas sociedades ocidentais não é novo. Já nos primeiros tempos do Cristianismo a diferença que marcava a atitude dos cristãos face à vida era apontada como marca definidora dos seguidores desta religião. Recordo, a título de exemplo, uma carta que terá sido escrita por volta do ano 150, por autor cristão a um certo Diogneto, que pertenceria ao mundo do império romano. Nela se diz, em determinado momento:
«Os cristãos, com efeito, não se distinguem dos demais homens nem pela sua terra, nem pela sua língua, nem pelos seus costumes; […] casam-se como todos; como todos geram filhos, mas não abandonam os que nascem.»
Numa altura em que o aborto não era provocado, pois redundava sempre na morte da mãe, o abandono dos filhos era prática corrente, que os cristãos, como se vê, não realizavam.
Mesmo sabendo que esta não é, de modo algum, uma questão religiosa ou muito menos de mera moral pessoal, mas sim de direitos humanos, pois significa impedir de reconhecer direito a nascer a quem tem menos de 10 semanas, os cristãos têm um dever acrescido de proteger os não nascidos…
ADAV/Aveiro – Associação de Defesa e Apoio da Vida/Aveiro. Telef.: 234 424 040
