“É melhor estar à chuva do que na barraca”

32º Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos A assistência quase ficou afónica, quando Cesarina Santos, uma jovem cigana, vinda de Bragança, lançou o brado deixando mensagem: “Eu não sei falar mas sei dizer que é melhor estar à chuva, na rua, do que na barraca onde chove. Nós, ciganos, antes de tudo precisamos de casa digna”.

Pela 32ª vez se realizou o Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos, presidido por D. António Vitalino Dantas, Bispo de Beja, Presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana. Participaram 50 pessoas, 20% das quais de etnia cigana, das Dioceses de Bragança – Miranda, Porto, Aveiro, Viseu, Guarda, Porta-legre e Castelo Branco, Leiria-Fátima, Lisboa, Beja e Algarve.

O tema principal do Encontro foi o empenhamento dos Secretariados Diocesanos da Pastoral dos Ciganos na evangelização entre as populações de etnia cigana e no desenvolvimento social das comunidades ciganas.

Estes encontros vêm-se aquilatando pela dinâmica que algumas dioceses vão imprimindo no seu árduo trabalho de saber conjugar uma pastoral de evangelho a percorrer os caminhos das barracas, das rotas das estradas, e não se limitando só (e ainda) a ficar-se pelas novas técnicas que tudo dão mas que, porventura, não chegarão ainda ao coração da maior parte das etnias que continuam a ser marginalizadas nos diversos sectores da sociedade, salvo raras (e já muitas) excepções.

Os ciganos já não precisarão tanto de pão, mas continuam a reivindicar, clamando mesmo, por casa, por condições higiénicas indispensáveis à dignidade humana. E todos terão chegado à conclusão de que é bom dar-se o peixe, mas é necessário também darem-se canas, não só às etnias, mas igualmente às gentes não gitanas, em especial a muitos cristãos bem comprometidos e responsáveis na “Santa Madre Igreja”, que ainda olvidam que o Cigano é PESSOA.

Catecismo Católico Cigano

Concluiu-se globalmente que a Pastoral dos ciganos – evangelização- não pode caminhar separadamente do social; é um trabalho de todos os sectores, quer das autarquias, das paróquias, das dioceses e suas instituições, com a colaboração dos responsáveis nacionais ou diocesanos. Preconizou-se a elaboração de um catecismo católico que assuma a forma da cultura e dos valores dos ciganos. Constatou-se que no modo de viver, social, do vestir há uma grande transformação, que surpreende, de algum modo, não só os “venerandos” ciganos de barbas e cabelos compridos, a olhar para as suas filhas ou netas de mini-saia, ou bem decotadas, mas também todos quantos se habituaram ao “habitat” cigano. Como conciliar também estas mentalidades, estas culturas?!

Destacamos ainda das conclusões os preconceitos racistas da nossa sociedade, no ter e no ser; a continuação da inactividade ao nível do Governo Central no que concerne à revisão da legislação obsoleta sobre a venda ambulante, uma das grandes alavancas da sobrevivência cigana, no norte, no sul ou no centro do País.