É preciso recordar

Na manhã do passado dia 3 de Março, pelas notícias da região aos microfones da Rádio Voz de Vagos, tive conhecimento da reunião anterior da Assembleia Municipal de Vagos. Baseando-me no texto que ouvi, resolvi escrever a seguinte nota… apenas para recordar.

TERRENO NA GAFANHA

DA BOA-HORA

Um dos pontos da agenda, segundo a notícia, foi a possível doação do terreno onde estão implantados e construídos, desde 1984, os edifícios da igreja matriz e das salas da catequese em favor da “Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia da Gafanha da Boa-Hora” (Paróquia), pessoa colectiva religiosa que goza de autonomia própria, cumpre-me dizer o quanto segue:

I.º – O terreno onde estão construídos os edifícios da igreja matriz e das salas de catequese da mencionada “Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia da Gafanha da Boa-Hora”, com a área prevista de 4.000 m2, foram oralmente cedidos, sem quaisquer condições, pelos Serviços Florestais do Ministério da Agricultura, no ano de 1971. Sem nenhum embargo, logo os responsáveis da Paróquia entregaram o estudo do projecto de arquitectura ao Arq. Santos Malta, do Porto. Feito isto, em 2 de Fevereiro de 1972 iniciou-se no local a construção da igreja, que foi solenemente benzida e inaugurada no dia 22 de Julho de 1984 pelo Bispo da Diocese de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade, com a presença da Presidente da Câmara Municipal de Vagos, D. Alda dos Santos Vitor, e do Presidente da Junta de Freguesia. Não se percebe o motivo de a Assembleia Municipal de Vagos não aceitar a resolução daqueles Serviços Florestais, quando o terreno em questão ainda não era da propriedade do Município.

II.º – Foi dito na referida reunião que a Igreja nunca dá nada; por isso, a Câmara Municipal apenas deve fazer a tal doação, se a Diocese (!) der à Associação de Solidariedade Social e Cultural de Santo André de Vagos o terreno da residência paroquial da mesma freguesia. A pessoa que isto afirmou e lançou à discussão até disse que tinha conhecimento de causa. Aqui recordo apenas dois processos em que a Paróquia de Santo André de Vagos foi solicitada para colaborar – e colaborou efectivamente – no bem da Freguesia:

II.1 – Em 20 de Fevereiro de 2002, o Bispo da Diocese de Aveiro homologou e autorizou a “Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Santo André de Vagos”, pessoa colectiva religiosa que goza de autonomia própria, a ceder o direito de superfície, a título totalmente gratuito, de cerca de 800 metros quadrados do quintal da residência “com o interesse de colaborar para o melhor bem da população”, em favor da Associação de Solidariedade Social e Cultural de Santo André de Vagos. Respondeu-se assim ao que fora solicitado pelo Presidente da Direcção em ofício de 22 de Outubro de 2001. Isto foi deliberado pelo Conselho Económico da Paróquia, em reunião presidida pelo Pároco e realizada em 30 de Outubro anterior. Como se previa que a escritura de doação iria demorar e se dizia ser urgente o início do processo para a nova construção, optou-se por aquele tipo de cedência.

II.2 – Em Setembro de 2003, o Presidente da Junta de Freguesia de Santo André de Vagos pediu a cedência de parte do adro da igreja velha de Santo André para o alargamento do cemitério. Sem qualquer reticência nem qualquer acto notarial, depois de um diálogo no próprio local, a cedência foi acordada sem demora pela “Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Santo André”, que nisso teve a concordância do Bispo da Diocese.

III.º – Recordo também outra abertura de colaboração de uma entidade da Igreja no Concelho de Vagos. Em ofício de 20 de Junho de 1997, a Presidente da Direcção do Centro de Acção Social de Covão do Lobo solicitou a cedência provisória, simples e gratuita, da casa paroquial, que é propriedade da “Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Covão do Lobo”, pessoa colectiva que goza de autonomia própria; na ocasião, houve algumas reticências do Pároco e do seu Conselho Económico Paroquial. Verificada a impossibilidade de outra solução para o exercício de solidariedade daquele Centro Social em favor das crianças da Freguesia, a mesma Presidente reiterou o pedido em 3 de Julho de 1998. Em face das circunstâncias, em 17 de Agosto de 1998 o Bispo da Diocese de Aveiro homologou a deliberação do Conselho Económico Paroquial de Covão do Lobo, sendo cedida aquela casa para o referido fim, por três anos. Em 31 de Agosto de 2001, foi autorizada a cedência por mais quatro anos.

ACTIVIDADE DA IGREJA

EM FAVOR DA PESSOA

Foi também dito, no desenrolar da mesma alínea em discussão, que a Igreja apenas se deve interessar com as almas. Sobre isto, tenho a lembrar que a Igreja tem por missão colaborar no bem-estar de toda e qualquer pessoa humana… e não apenas das almas. Neste campo, seria injusto não recordar o que generosamente foi feito – e é feito – pelos responsáveis e pelas comunidades da Igreja Católica, sofrendo sem descanso as carências do povo e ajudando-o a libertar-se de certas condições desumanas. Não recuo aos séculos passados da história, sobre o que tanto haveria que referir; nem saio sequer dos limites do Concelho de Vagos, a partir do segundo quartel do século XX. Apenas anoto, por acto de justiça:

I – Desde Junho de 1927 até Junho de 1939, foi pároco de Calvão o saudoso Padre António Martins Baptista, que, em 1931, iniciou um “colégio” para a formação e instrução de rapazes; em 1936, no Rocio de Calvão, iniciou a construção de um edifício propositadamente destinado para o efeito; assim nasceu uma escola para estudos, depois da instrução primária, que perdurou até Junho de 1939. Será que o Padre Baptista, no exercício da sua missão pastoral, dedicando-se singularmente à formação de jovens e adultos, apenas terá pensado nas almas?

II – Aproveitando o edifício abandonado e em ruína, a “Diocese Aveiro” recuperou-o e ampliou-o e aí estabeleceu o Seminário Menor de Nossa Senhora da Apresentação, inaugurado em Outubro de 1960, ao qual, em 1992, sucedeu o actual Colégio Diocesano de Nossa Senhora da Apresentação, com a actividade formativa e escolar que todos os vaguenses (e não só) conhecem e apreciam. Será que a Diocese, no exercício da sua missão pastoral, apenas terá pensado nas almas, ao despender energias e cuidados em vários ramos do ensino, ministrados nesta escola?

III – Na mesma freguesia de Calvão, o Padre Domingos José Rebelo dos Santos, vigário paroquial de Calvão de Outubro de 1953 a Outubro de 1955, com a anuência do Padre Augusto Gomes da Silva (1939-1957), além dos seus deveres sacerdotais, também se entregou à concretização da rede eléctrica na freguesia, com uma cabine de transformação própria. E mais tarde, o Padre José Félix de Almeida, pároco de Calvão (1957-1961), dedicar-se-ia à colaboração efectiva com o Presidente da Junta de Freguesia na construção do novo edifício da Escola Primária. Será que os Padres Rebelo e Félix, no exercício da sua missão pastoral, apenas terão pensado nas almas?

IV – Foi pároco de Covão do Lobo, de 1941 a 1983, o Padre Ma-tias Ribau. A sede da freguesia não tinha ligações fáceis com os seus lugares de então, Santa Catarina e Fonte de Angeão; eram caminhos abertos nos terrenos de areia, sem quaisquer estradas de macadame ou esfalto. Quando, em Agosto de 1943, o Arcebispo-Bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, fez a visita pastoral à Paróquia, teve de ser transportado em carro de bois desde o lugar da Parada, para conseguir chegar à igreja matriz, regressando da mesma forma por Febres. Conhecido o facto, logo os responsáveis políticos decidiram construir uma estrada até Calvão por Fonte de Angeão e o próprio pároco foi o orientador das obras da estrada para Santa Catarina, mesmo com a pá nas mãos. Será que o Padre Matias Ribau, no exercício da sua missão pastoral, apenas terá pensado nas almas?

V – No campo da solidariedade social, quando o povo não tinha infantários nem lares de idosos, foram as Paróquias, incentivadas pelos seus párocos, que primeiramente se lançaram na sua criação e têm continuado com a sua direcção. Assim aconteceu com o Centro Social Paroquial de Fonte de Angeão (1966; Padre Manuel dos Santos Silva), com o Centro Social Paroquial de Santo António (1977; Padre Manuel da Rocha Creoulo), Centro Social e Bem-Estar de Ouca (1980; Padre António Correia Martins) e Centro Social Paroquial de Calvão (1986; Padre José Arnaldo Simões). Será que estes párocos, no exercício da sua missão pastoral, apenas terão pensado nas almas?

VI – Finalizando, não se pode igualmente esquecer a valiosa acção material e moral das Conferências Vicentinas junto dos carenciados e abandonados… e elas existem nas Paróquias de Vagos (desde 1931), de Covão do Lobo (desde 1935) e de Santo André de Vagos (desde 1952). Além delas, ainda se registam os Grupos Cáritas, sediados nas Paróquias da Gafanha da Boa-Hora, de Ouca e de Soza. A sua benemérita actividade orienta-se ao bem das pessoas, sem se limitar às almas.

Este é um breve e possível apontamento que me foi sugerido, quando, através da Rádio Voz de Vagos, ouvi a notícia do debate na Assembleia Municipal de Vagos. Esta mesma Rádio, propriedade da “Cooperativa Rádio Emissor Santo António de Vagos, C. R. L.”, foi sonhada pelo dito Padre Manuel da Rocha Creoulo e por várias pessoas interessadas; concretizando o plano, em 1988, meteram mãos à obra em 1988. O mesmo pároco disponibilizou uns anexos da igreja matriz de Santo António de Vagos e permitiu a montagem da antena na torre do mesmo templo.