O diácono Acácio José Pereira Lopes é, desde o início de Setembro, o director do Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC), o órgão da Conferência Episcopal Portuguesa para três grandes sectores da Educação Cristã: Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), Catequese e Escolas Católicas. Acácio Lopes foi professor de Filosofia e colaborador de colégios da diocese de Lisboa. Nos últimos 13 anos integrou a direcção da Associação Portuguesa de Escolas Católicas. Até ao próximo dia 10, vive-se em Portugal a Semana Nacional da Educação Cristã. Entrevista conduzida pela Agência Ecclesia.
CORREIO DO VOUGA – Como encarou o desafio de coordenar as actividades do Secretariado Nacional da Educação Cristã?
ACÁCIO LOPES – A primeira reacção foi de grande perplexidade e, mesmo, de grande confusão de sentimentos, à mistura com alguma especulação interior sobre as motivações e os pressupostos que espreitariam por detrás do convite. Depois, vieram as tentativas de enquadramento racional de tudo isso com o meu dever de ministro da Igreja e as exigências da minha vida familiar e a luta contra a tentação pessoal de uma vida mais tranquila e descansada, agora que, finalmente, estava aposentado da vida profissional docente. O dia litúrgico da Epifania de 2010, dia em que, na Casa Patriarcal, me foi feito o desafio e lançada a rede, ainda repercute na minha memória como o início de um combate desigual. Venceu o “Anjo”, perdi eu; a minha grande esperança é de que o resultado desta luta (o meu sim ao chamamento para abraçar esta nova forma de ministério eclesial) represente um bem para a Igreja e uma oportunidade mais que o Senhor me oferece de santificação.
Que desafios marcam este início de ano de actividades, nos diferentes sectores da Educação Cristã?
Trata-se de levar tão longe quanto possível o Plano de Acção da Comissão Episcopal da Educação Cristã para o triénio 2008-2011. Ao nível do Departamento da Catequese, agora que está a sair o 4.º Catecismo, vamos editar o respectivo Guia do Catequista, que está pronto para o arranjo e montagem gráficos, terminar a elaboração do 5.º Catecismo e pedir à Conferência Episcopal a clarificação do lugar da “Profissão de Fé” no itinerário catequético, para que se possa elaborar, com rigor, o 6.º Catecismo. Por outro lado, o nível de exigência catequética e pedagógica destes mais recentes catecismos mobiliza-nos para uma aposta forte na formação dos catequistas. Iremos, também, realizar as Jornadas Nacionais de Catequistas, integradas na Semana Nacional da Educação Cristã, e o 50.º Encontro Nacional de Catequese, que terá lugar em Abril, na Guarda.
No que respeita ao Departamento de EMRC, temos em mãos a elaboração dos recursos e materiais pedagógicos para alguns dos anos e unidades didácticas. Procederemos, paralelamente e à medida que esses materiais forem sendo utilizados, juntamente com os professores no terreno, a uma análise crítica dos mesmos para que as deficiências encontradas possam ser supridas ou corrigidas e se possam introduzir melhorias nas reedições posteriores. Mobiliza-nos, também, actualmente, a necessidade de, em negociação colaborante com o Ministério da Educação, ultrapassar algumas contradições e vazios legislativos no que diz respeito ao estatuto da disciplina de EMRC no sistema de ensino e à questão das habilitações próprias e profissionais dos respectivos professores. Concomitantemente, temos pela frente um desafio enorme: levar à aquisição de habilitação própria e profissional um grande número de professores que ainda não as possuem. É um esforço que vai exigir grande empenho das estruturas educativas da Igreja, dos professores e, ao mesmo tempo, uma grande flexibilidade legislativa e administrativa do Estado. Em Janeiro próximo, iremos também realizar o Fórum de EMRC. E, ao longo do ano, haverá várias campanhas e encontros de responsáveis diocesanos, professores e alunos.
Há ainda a Escola Católica…
No que respeita à Escola Católica, procuraremos dar resposta aos desafios decorrentes do Seminário que realizámos no início de Setembro, simultaneamente em Lisboa e Coimbra, sobre competências pedagógicas e pastorais dos professores, com a orientação duma equipa formadora espanhola. Para além desta relação com equipas e instituições internacionais, pretendemos lançar as bases para a realização de formação por equipas e instituições nacionais. Por outro lado, poderá ser importante que o SNEC se constitua, cada vez mais, como plataforma de articulação de propostas e iniciativas com origem em outras instituições educativas católicas (associações, institutos, escolas, etc.).
Que outros desafios para a Educação Cristã?
A melhoria do nosso “site”, colocando-o ao serviço das necessidades formativas dos nossos professores, catequistas, pais e alunos, ou de quem queira beneficiar desse serviço, a procura de que o “site” seja também, cada vez mais, um suporte de divulgação de textos de interesse educativo e formativo produzidos por investigadores nacionais e estrangeiros, tudo isso se ergue no horizonte das nossas intenções. É um trabalho a desenvolver a longo prazo. Está nos nossos planos, também, dar continuidade às publicações periódicas da nossa responsabilidade. É nossa intenção publicar proximamente um número da revista “Pastoral Catequética” de homenagem a D. Tomaz Silva Nunes. São, na realidade, muitos os desafios. Há, de facto, muito a fazer. Realizaremos o que a nossa capacidade, fundada na vontade de Deus e apoiada pela Sua graça, nos permitir.
O inesperado falecimento de D. Tomaz Nunes dificulta a concretização dos planos definidos?
O falecimento de D. Tomaz, precisamente no dia em que eu iniciava, oficialmente, este novo ministério, para o abraçar do qual ele teve uma influência decisiva, foi, para mim, um choque, de que ainda não me refiz. D. Tomaz, na sua missão de Presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã, acompanhava assídua e presencialmente a quase totalidade do trabalho executivo que compete ao Secretariado Nacional da Educação Cristã. Claro que a sua ausência dificulta bastante a nossa missão. Não contamos com o seu entusiasmo, o seu empenhamento activo, o seu saber e experiência acumulada, a sua capacidade de discernimento, o seu aconselhamento pronto e afável, a sua simpatia pessoal, a sua alegria contagiante.
Todavia, o que está projectado e programado terá de ser realizado. As exigências da nossa missão eclesial não se compadecem com o olhar para trás, sob pena de nos transformarmos em “estátuas de sal”.
De que forma se organiza a Comissão Episcopal da Educação Cristã?
A Conferência Episcopal Portuguesa entendeu, julgo que por ser o último ano de mandato, não substituir D. Tomaz na Comissão Episcopal. Ela é composta, a partir de agora, pelos restantes Bispos que já a compunham e por mim, seu Secretário, tendo sido designado como coordenador D. António Marcelino, Bispo Emérito de Aveiro.
De que forma se assinala, este ano, a Semana Nacional da Educação Cristã?
A Nota Pastoral da Comissão Episcopal da Educação Cristã, alusiva à Semana, terá como título a incisiva exortação de Bento XVI, quando da sua recente visita a Portugal: «Tornai as vossas vidas lugares de beleza» [ver página 16]. Esta exortação constituirá o lema da Semana Nacional, que teve início no domingo passado.
No dia 6 de Outubro, à noite, em Aveiro, haverá um Colóquio sobre as relações Igreja-Estado e as respectivas influências e consequências no estatuto da disciplina de EMRC. Entre os dias 8 e 10 de Outubro, em Fátima, terão lugar as Jornadas Nacionais de Catequistas, com um programa próprio. A Semana encerrará em 10 de Outubro com a celebração, às onze horas, da Eucaristia na Capela do Seminário do Verbo Divino, transmitida pela Rádio Renascença.
A este respeito, que me seja permitida uma última observação: a Semana Nacional da Educação Cristã deste ano tem o selo e a marca de D. Tomaz, que tanto se havia empenhado nela. Ela representará, também, uma evocação à sua memória.
