Ecos da assembleia vicentina da Quaresma

O Conselho Central das Conferências Vicentinas de Aveiro promoveu a realização da Assembleia Diocesana da Quaresma. Foi anfitriã a Conferência de Salreu, em cujo salão paroquial decorreu a jornada. O espaço foi exíguo, o que, parecendo à primeira vista uma contrariedade, se foi convertendo em regozijo colectivo pela numerosa, atenta e participativa moldura humana que se foi formando. Eram mais de 100 os vicentinos presentes, vindos dos vários pontos da diocese. Mais uma cadeira aqui, mais outra ali, e todos couberam. Os recursos foram totalmente aproveitados, à maneira vicentina: na família, há sempre lugar para mais um, assim como capacidade de adaptação a partir do que se tem.

Presidiu à assembleia, também com grande júbilo de todos, o nosso Bispo, D. António Francisco dos Santos, cabendo a abertura dos trabalhos à Presidente do Conselho Central, Georgina Netos dos Santos, com a oração inicial, as palavras de boas-vindas e a apresentação da mesa.

Seguiu-se o tempo de reflexão, a cargo do P.e Manuel António Carvalhais, conselheiro espiritual do Conselho Central: a diaconia paulina, bem como em toda a Igreja nascente, como testemunho para nós, no tempo de Quaresma que estávamos a viver. Salientou o espírito combativo de S. Paulo, notório no campo da Caridade, pela preciosa mensagem no campo doutrinal e pelo extremo empenho dedicado à colecta a favor dos pobres de Jerusalém. E, tendo como pano de fundo a Segunda Carta ao Coríntios, capítulos 8 e 9, expressou alguns desafios concretos à acção vicentina, muito pertinentes para os tempos que vivemos.

A Dr.ª Susana Furtado Ribeiro, Conselheira de Orientação Profissional, do Centro de Emprego de Águeda, apresentou aos vicentinos um trabalho de muito interesse: Factores de Pobreza e Exclusão Social – grupos sociais vulneráveis.

Na sua qualidade de técnica nesta área e, conforme frisou, como católica comprometida, evidenciou os seus conhecimentos teóricos e de acção empenhada, na procura de caminhos de ajuda. Abordando alguns grupos sociais em que a pobreza e a exclusão social mais se manifestam actualmente – os desempregados, os toxicodependentes, os sem-abrigo, os idosos, as pessoas com deficiência, os imigrantes, as famílias monoparentais – alertou para as causas, acentuando aspectos mais problemáticos e que afectam a dignidade humana.

Ao mesmo tempo, foi indicando algumas respostas das entidades oficiais particularmente responsáveis, que poderão ajudar a minimizar situações mais graves e a criar incentivos de promoção e desenvolvimento pessoal e social das pessoas afectadas, incluindo os jovens. Alertando para as situações de dependência, que os próprios serviços públicos podem fomentar, não deixou de referir que continuam a faltar, em muitos casos, projectos de ocupação que sirvam o país e que respondam ao desenvolvimento humano e social do próprio dependente.

No debate foram apresentados casos concretos e com os quais os vicentinos lidam todos os dias, pedidos esclarecimentos e sugeridas pistas.

A propósito da discussão sobre o salário justo, alguém lançou este desafio: E qual será o salário justo para os ricos? Este é um problema a equacionar para quem de direito, também pela Igreja.

Após este tempo de diálogo, o Senhor Bispo tomou a palavra, manifestando a sua alegria em estar com os vicentinos da Diocese de Aveiro – “um testemunho maravilhoso de serviço à Igreja na ajuda aos mais pobres”.

Fez alusão à comemoração dos 150 anos da Sociedade de S. Vicente de Paulo em Portugal (1859), um tempo igualmente de crises sociais e outras, e de muito menos respostas adequadas. Acentuou que hoje, de facto, a dignidade humana está em causa, as pessoas sentem-se tristes, desiludidas. É preciso que toda a sociedade e a Igreja dêem o seu contributo para erradicar estes males.

Deu o seu testemunho como vicentino, em tempos de jovem estudante e, mais tarde, em Paris, como tradutor da Confederação Internacional da S.S.V.P., cuja sede social é nessa cidade, berço das Conferências Vicentinas.

D. António Francisco fez alguns apelos aos presentes: a oração como motor de toda a acção vicentina; a renúncia pessoal; a presença discreta e a generosidade do testemunho, base da irradiação do bem que se faz; o exercício do ministério da caridade; a valorização da formação nas diversas áreas; a atenção à palavra de Paulo, que este ano nos motiva. Como resumo destes, disse: “O mundo precisa de ler o Evangelho no rosto e na vida dos cristãos”.

Um Vicentino