Edificar sobre a rocha

À Luz da Palavra – IX Tempo Comum – Ano A A liturgia da palavra tem como centro o facto de que a vida humana só tem garantia de consistência e de durabilidade no tempo, se se apoiar na Palavra de Deus, inscrita no coração humano e feita vida na nossa própria vida. Esta Palavra, já dirigida ao Povo na Antiga Lei, torna-se Pessoa pela encarnação de Jesus Cristo. Aderir de coração à Palavra de Deus é aderir à Pessoa de Jesus Cristo, na qual se totaliza a revelação de Deus.

O evangelho apresenta-nos uma analogia onde podemos perceber as características do nosso tempo, profundamente marcado pela inconsistência e precariedade das nossas relações e compromissos interpessoais. Estas características coetâneas são uma consequência do modo como construímos a nossa vida. Cai a chuva, vêm as torrentes e sopram os ventos contra a nossa “casa” e ela desmorona-se e é grande a sua ruína. É deste modo que Mateus exorta os cristãos destinatários do seu evangelho: não se contentem em dizer “Senhor, Senhor”, isto é a invocar o nome de Deus em vão, com uma simples interjeição. “Oh Senhor!”, “Valha-me Deus!”, como tantas vezes nós também dizemos, mas conheçam bem Jesus e ponham em prática a vontade do Pai, como Ele fez e nos ensinou a fazer. Então, pode cair a chuva, virem as torrentes e soprarem os ventos contra a nossa “casa”; mas ela não cairá, porque está fundada sobre a rocha. Como reajo eu diante dos contratempos? Revolto-me, isto é, reajo como se não tivesse fé, ou procuro ler os sinais de Deus à luz da oração? Como me empenho cristãmente na vida familiar, social, cultural e política?

Na segunda leitura Paulo diz-nos que, para além da Lei de Moisés, que foi dada apenas ao povo judeu, se manifestou agora a justiça de Deus, que “vem pela fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os crentes”. Não são as obras da Lei que nos salvam, continua Paulo, mas é a fé em Jesus Cristo que nos justifica, isto é, que nos liberta do pecado e nos torna santos. Estão as minhas obras em consonância com a fé que digo professar? Há realmente coerência entre a fé que professo e a vida que levo?

A primeira leitura exorta o povo a viver próximo das palavras de Deus, a fim de que cada judeu obedeça aos mandamentos do Senhor. De facto, os mais crentes do judaísmo mantinham o costume de usar pequenas caixas de couro amarradas com tiras no braço esquerdo e na fronte, para que a Palavra de Deus ficasse mais perto da mente e do coração. Contudo, diante da Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo, ficaram cegos e surdos. E é este o grande drama do povo judeu, que permanece até aos nossos dias. Pode ser também o grande equívoco de cada um e cada uma de nós, se mantivermos apenas uma prática cristã exterior, relativamente ao que pensamos ser a Lei de Deus, e não a gravarmos no nosso coração, de modo a que a Pessoa de Jesus Cristo enforme toda a nossa vida e acção. Qual é a qualidade da minha fé em Cristo, único garante de verdadeira felicidade? Procuro aprofundar os meus conhecimentos sobre a Palavra de Deus para que a minha vida se identifique com a de Jesus?

IX Domingo Comum: Dt 11,18.26-28.32; Sl 31 (30); Rm 3,21-25a.28; Mt 7,21-27

Deolinda Serralheiro