Elevar-se da Ásia aos céus

Reflexão teológica sobre o mal Diante do mal, e, principalmente, do mal do inocente, as palavras são sempre em excesso. A história da humanidade fez-se e continua a construir-se diante do desafio misterioso do mal. E muitas têm sido as tentativas de lhe conferir sentido. Mas, muitas delas pecam por pretenderem reduzi-lo a esquemas mentais que acrescentam, à dureza do mal, a crueldade da indiferença e do silenciamento da consciência. A terrível pergunta da mãe que, com a criança nos braços, eleva a sua voz aos céus em busca de uma resposta, não pode senão inquietar, em vez de aquietar. E muitas têm sido as palavras que procuram aquietar, branqueando a força desafiadora do mal na história.

Neste conjunto de respostas e palavras aquietadoras integro aquelas que, diante do mal, afirmam, definitivamente, que o mal é a prova da não existência de um Deus bom. Tal conclusão é a renúncia a deixar-se desafiar constantemente pela interpelação do limite e da imperfeição, como se a leitura religiosa da vida fosse um amontoado de respostas prévias a todas as perguntas que o percurso diário do homem na história vai lançando. E este é um erro fatal.

Diante do mal, não há resposta alguma explicativa, mas antes, um profundo mistério que nos situa em atitude de vigilância e atenção, em postura de permanente inquietação, de permanente busca. A atitude religiosa não é, em meu entender, uma condição prévia a tudo. É, antes, a condição que, emergente do mal, procura voar às alturas, em busca de um sentido definitivo que não se afunda na história, mas que para além da história, conduz à confiança de que a última palavra não será a do mal.

O binómio que emerge, diante do mal, é o que separa o desespero da esperança, a satisfação da inquietação, a acomodação da busca permanente. O homem religioso nasce, aí, onde o mal é mais emergente. Porque aí se manifesta, de forma quase definitiva, o limite da criatura que, interpelada a realizar-se totalmente, se fica aquém da sua realização, na imperfeição da sua condição criatural.

Desafio interpelador

Recordo, neste contexto, o pensamento penetrante de Andrés Torres Queiruga que captou esta densidade desafiadora do mal e percebeu que, sendo ela aparentemente inconciliável com a afirmação de um Deus bondoso, havia que encontrar os pontos de encontro entre a milenar fé cristã na bondade divina e na sua providência permanente, e a sua quase inconciliabilidade com a existência do mal no mundo. Para Queiruga, o mundo, a criatura não podia senão ser imperfeita. Pelo que a pergunta não poderá ser nunca «porque criou Deus um mundo imperfeito?», mas sim «Porque aceita Deus criar um mundo sabendo que ele será necessariamente imperfeito?». A resposta, agora formulada a partir de uma pergunta ajustada, não poderá ser senão que, pior que o mal, aqui entendido como a condição de limite, é o nada. E, entre criar, mesmo que com limite, ou deixar permanecer em nada, a opção melhor é, certamente, o bem com limite. Mas, religiosamente entendendo, o mal continua aí, a inquietar, a desafiar cada um que lhe sobrevive, a contribuir para a sua diminuição. E, na linha de Queiruga, esse contributo passa por aumentar a possibilidade de realização, pois o mal é a não realização do bem. É, aliás, de forma mais teológica, a recusa de responder positivamente à providência que chama constantemente. (É curioso ver que toda a história da salvação é feita na dinâmica da vocação, do chamamento. O chamamento que apela à plena perfeição, à plena realização, não apenas os humanos, mas toda a criatura.). Essa permanente Providência que apela, que chama, ora encontra resposta (no homem e nas demais criaturas emerge o bem, o milagre, a realização total do homem), ora é recusada (e o bem fica por realizar, redunda em mal, em limite). E aqui nasce a pergunta: por que prevaleceu a recusa de resposta sobre plena realização?

A resposta de Deus foi a morte do Inocente, o Eterno Inocente que recusa, na sua morte, a resposta dos que já no tempo de Job pretendiam imputar a Deus a responsabilidade do mal, ou ao pecado de alguns. O mal não é pena ou cumprimento de punições… É desafio interpelador… É o princípio da condição inquieta…

Luís Manuel Silva