Vidas que marcam “A ter de decidir-me pela imitação de Cristo, eu desejava que fosse de uma maneira radical. Teimosa como era, não estava no meu feitio deter-me a meio caminho. (…)
Um dia decidi-me. Não esqueçais que sou mulher: tenho a astúcia das filhas de Eva. Meu pai regressava de Arzila, da guerra contra os mouros. Regressava vitorioso. Vesti o meu vestido de veludo verde. O verde é a cor da esperança. Adornei-me com as minhas jóias. Dizem que ia bonita. Quando meu pai desceu em terra, dirigi-me a ele para o saudar. Era a mim que me competia fazê-lo, dada a minha condição. Pus em jogo todos os recursos literários que os meus mestres me haviam ensinado.
Recordo-me de que o discurso terminava assim: Quanto os antigos imperadores regressavam vitoriosos de alguma campanha bélica, para mostrar a sua gratidão aos deuses ofereciam-lhes o melhor que tinham, dando para o seu serviço a filha mais prendada. Vossa Majestade – que é cristão – não será menos generoso para com o Deus verdadeiro do que os pagãos o eram para com os seus ídolos. Peço-lhe que me permita fazer profissão de vida religiosa onde Deus for servido chamar-me.
Senti que uma nuvem de tristeza perpassou pelo semblante de meu pai. Meu irmão e os outros nobres que o acompanhavam não esconderam a sua reprovação, olhando uns para os outros e vozeando. Fiz de conta que não percebi. O que interessava era que o meu pai dissesse que sim. E meu pai disse que sim.
Não sabeis, queridos moços e moças, quantas barreiras foi preciso vencer para seguir a minha estrela, até os representantes do povo fizeram sua a questão: que eu não tinha direito de dispor de mim mesma, que havia razões de Estado que se sobrepunham à minha própria vontade…
Consegui sair (sempre debaixo de escolta), para o convento cisterciense de Odivelas, nas arrabaldes de Lisboa. Pois mesmo ali vieram acompanhados de testemunhas e notários, os procuradores do povo, tentando impedir primeiro com promessas e depois com ameaças, que eu seguisse o meu caminho.
Mas estava decidido. Havia uma força interior que me impelia. Não era o mundo que eu detestava. Longe disso. Era o amor de Jesus Cristo que me chamava, e me chamava para segui-l’O, onde mais de perto O pudesse imitar e servir.
De Odivelas consegui chegar a Coimbra. Não imaginais o que foi essa viagem no pino de Verão de 1472. A minha comitiva, da qual fazia parte o meu próprio pai, insistia em que eu ficasse em Coimbra, no mesmo mosteiro onde tinha ficado a Rainha Santa, D. Isabel de Portugal. Era um convento grande – diziam – à beira de uma bela cidade. Não me faltariam ali visitas, conforto e amizade. Mas eu não tinha saído de casa para isso.
O meu desejo e a minha meta era o Mosteiro de Jesus de Aveiro – não o mosteiro engrandecido que vós agora conheceis, mas a casa pobre e humilde, fundada por D. Brites Leitão, longe do bulício do mundo. Eu estava informada de que em Aveiro, a minha pequena Lisboa, podia encontrar a humildade e a pobreza.
Houve relutância à minha volta. Senti-me a combater sozinha. Foi preciso impor-me. Mas vale a pena ser teimosa, quero dizer, ser lúcida e ter firmeza. Só quando a firmeza se alia com a verdade é que a teimosia é virtude. Foi em Aveiro que realizei o meu sonho…”
Excerto da “Carta da Princesa Santa Joana aos Jovens”, escrita por D. Manuel de Almeida Trindade para o dia 12 de Maio de 1979
