Encarnação – onde está o teu irmão?

Reflexão É Natal. Deus encarnou. Deus quis tornar-se tão próximo de nós que o Verbo se fez carne, assumiu a nossa fraqueza, a nossa mortalidade.

Todos sabemos tanta coisa sobre esta verdade central da nossa fé. Rios de tinta correram e correm a propósito da encarnação do Verbo

E eu, nada mais sei dizer sobre este mistério, nem sequer dizê-lo com a mesma precisão e beleza com que tantos já o fizeram e continuam a fazer.

O que sinto é uma profunda dor interior por ainda não ter sido capaz de responder à pergunta que Deus me faz ao vir ao meu encontro, ao assumir a minha carne, ao estar frente a frente comigo: “Onde está o teu irmão?” (cf. Gn 4, 9).

A encarnação não é inconsequente. Ela é o sentido da nossa história, porque é a nossa origem, o nosso caminho e o nosso destino: somos de Deus, caminhamos em Deus e realizamo-nos em Deus. E Deus é amor em si, por nós, em nós e para nós. Daí que, neste encontro de Deus com o Homem na encarnação, a pergunta se torne inevitável: “Onde está o teu irmão? O que lhe fizeste?”

Que encarnação é esta em nós, na vida de cada um de nós e nas nossas comunidades, se não respondermos a esta pergunta? É que a resposta a esta pergunta é o reconhecimento da presença de Deus em cada irmão e daí o reconhecimento da presença de Deus em cada um de nós.

Nesta lição que Deus nos dá na encarnação, posso descobrir a proximidade do meu irmão, que é o meu pai, a minha mãe, os meus filhos, os meus colegas, as pessoas com quem me cruzo todos os dias, os irmãos que vejo nos meios de comunicação social.

Querer celebrar o Natal é buscar o pleno sentido do que significa a encarnação: Deus é nosso Pai e, ao mesmo tempo, o nosso irmão. Deus persiste em propor-nos o único sentido possível para o que somos: realizar a divindade que há em nós. E o único caminho para realizar esta divindade é o encontro com Deus, encontro que só é possível no ser homem à maneira de Jesus Cristo – Verbo encarnado. E, neste jeito, a fraternidade é imperativo ético e moral.

Celebrar o Natal e, consequentemente, a encarnação é colocar a mesma questão que as multidões, publicanos e soldados colocaram a João: “E nós, que devemos fazer?”.

A resposta tem tanto de simples como de exigente: FAZ-TE PRÓXIMO DO TEU IRMÃO. E Deus, na encarnação, ensinou-nos como se faz esta proximidade: sair de si mesmo e ir, gratuitamente, livremente, despojado e sem medos, ao encontro do outro. Ser cristão, ser Igreja mistério e instituição é ser próximo. Só assim não teremos de nos esconder da presença de Deus (cf. Gn 3, 8).

Francisco Melo