Énio Semedo publica livro sobre Salgado de Aveiro

Sexta-feira, pelas 18 horas, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Aveiro, será apresentado o livro “Ecomuseu do Salgado de Aveiro. Preservar para transmitir”, da autoria de Énio Semedo, com edição da FEDRAVE. Nesta entrevista, o autor explica o que o levou a efectuar esse estudo e as metas que propõe. Entrevista conduzida por Cardoso Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – O livro “Ecomuseu do Salgado de Aveiro. Preservar para transmitir” é mais do que um livro sobre um ecomuseu do salgado aveirense porque apresenta uma resenha histórica do sal em Aveiro e toda a sua componente etnográfica associada. Pode dizer-se que este livro abrange todo o mundo ligado ao salgado aveirense?

ÉNIO SEMEDO – De facto, no livro procurei abordar toda essa temática. Apesar das notícias recentemente vindas a público nos darem uma boa perspectiva do que ainda pode vir a ser a indústria do sal em Aveiro, o que acontece é que ela está em franco declínio. Quando comecei a fazer este estudo, há 12 anos, havia quase 30 marinhas a laborar, e agora são dez ou menos. Isso comparado com as 270 ou até as 500 que se diz que houve, mostra bem esse declínio. Esta actividade diz muito a Aveiro e há até uma citação, que eu faço no livro, que diz “Aveiro só foi sal” porque enorme percentagem de documentos, sobretudo medievais, é referente ao salgado. Não sendo eu natural de Aveiro, mas sentindo-me aveirense, resolvi aproveitar a tese de mestrado para mostrar o meu reconhecimento a esta terra, pegando numa das coisas mais simbólicas de Aveiro e mais significativas sob o ponto de vista económico, com um forte cunho identitário. Toda a gente liga Aveiro a quatro coisas: Ria, Barco Moliceiro, Sal e Ovos-moles.

Desses quatro temas, escolheu o salgado.

Pensei que a melhor maneira de preservar a indústria do sal em Aveiro era através da criação de um ecomuseu, um verdadeiro ecomuseu de comunidade, um ecomuseu dos marnotos, para os marnotos e com os marnotos. Eles que se mostrem à comunidade e a quem os quiser visitar e ao mesmo tempo reanimem a actividade. Esse foi o primeiro objectivo que me motivou a fazer isto. As incursões que fiz pela História e pela Geografia já tinham o propósito de lançar os alicerces desse ecomuseu. Quem ler o livro irá notar que eu questiono algumas das afirmações que até hoje têm sido dadas como indiscutíveis. Com essas incursões, tentei dar alguma informação para justificar o contexto espacial e histórico do território onde esse ecomuseu deveria ser instalado.

Como seria esse ecomuseu?

Eu concebo um ecomuseu com núcleos geograficamente espalhados mas tão próximos quanto possível, para permitir pequenas deslocações a pé, de barco ou de bicicleta. Defendo que o Núcleo Interpretativo fique no Canal de S. Roque porque aí foi o centro da actividade salineira. Aí eram desembarcados os barcos saleiros, aí existiam os armazéns e as balanças, aí foi construído um ramal ferroviário e foi por causa do sal que foram construídos os ramais da Linha do Vouga e da Linha do Norte para permitir aos comboios virem a Aveiro carregar sal. Para além do sal, aí eram carregados inúmeros produtos da região. A Câmara Municipal de Aveiro é proprietária de palheiros no Canal de S. Roque que podem ser adaptados para acolher esse núcleo. O lugar de maior cunho salineiro é o Canal de S. Roque.

O seu projecto é mais amplo que o actual Ecomuseu da Marinha da Troncalhada?

Sim. O ecomuseu em si não constitui um fim. Eu defendo que o ecomuseu deve ser a estrutura capaz de reanimar a actividade. No livro, digo claramente que a compra da Marinha da Troncalhada, pela Câmara Municipal de Aveiro, foi a iniciativa mais significativa que os poderes autárquicos tomaram em relação a um museu do sal. Mas não pode ser só a Troncalhada. No livro defino vários núcleos, ainda que os dois mais significativos sejam a Marinha da Troncalhada, onde se pudesse ver ao vivo as diversas fases da faina, e um núcleo interpretativo. A safra do sal é sazonal. Começava com a Feira dos Moços, por altura da Feira de Março, e depois prolongava-se até “quando Deus queria”: se chovia cedo, a safra não seria boa, se o Verão se prolongava até mais tarde, a safra podia ir até Setembro ou Outubro. De Outubro até meados da Primavera não é possível mostrar a faina na marinha. Por outro lado, há trabalhos na marinha que não se repetem, mas também há outros que são muito maçadores para o observador porque são monótonos e repetitivos. O núcleo interpretativo tem de ser didacticamente muito bem pensado, daí a importância que eu atribuo aos técnicos de museologia na estruturação do ecomuseu. Esse núcleo interpretativo teria múltiplas funções, desde exposições até espaço de “loja de museu”, passando por outras funções que convirjam e comunguem dos mesmos interesses do ecomuseu.

Nessa “loja de museu” poderia ser vendido sal, flor de sal e produtos de cosmética e de higiene confeccionados à base de sal?

Tudo isso teria aí lugar. Nenhuma porta se deve fechar. Também deveriam ser explorados dois produtos que em Portugal não têm merecido a devida atenção. Um, é a salicórnia, que é uma “erva”, conhecida por “gramata” que se vende na Europa do Norte por preços elevados. Essa planta tem aplicações culinárias muito interessantes. O outro produto tem a ver com SPA, hoje tanto em moda. Onde é que está o aproveitamento da água marinha nos SPA em Aveiro? Esse seria uma boa oferta para vender aos turistas. Outra coisa poderia ser do género “manteiga feita com sal de Aveiro”, como fazem em França, em que os produtores de manteiga e de sal só têm a beneficiar com essa parceria. O sal de Aveiro poderia entrar em vários produtos gourmet. Esse caminho da gastronomia e dos produtos regionais ainda está perfeitamente virgem e deverá ser explorado tal como o dos SPA. A flor de sal é caríssima e, felizmente, os marnotos estão a despertar para esse produto que já se pode comprar na Marinha da Troncalhada. A flor de sal é o sal naturalmente refinado e tem um maior poder de salga, ou seja, com menor quantidade obtêm-se o mesmo resultado do que usando sal normal.

O seu livro é também um estudo etnográfico do salgado…

…Que obviamente é o mais importante. Foi um prazer extraordinário esse meu contacto com os marnotos. Os marnotos são seres humanos extraordinários e penso que enquanto houver marnotos esse é um tema que deverá ser aprofundado. Claro que antes de eu ir para a marinha documentei-me, mas nunca me deixei influenciar pelo que li e sempre estive aberto àquilo que para mim era novidade e, felizmente, encontrei algumas que acrescentei à bibliografia existente. A brancura do sal de Aveiro é uma questão técnica que deveria ser estudada. Eu encontrei um marnoto que revela como é que se pode produzir sal branco sem areia. A areia é o grande problema do sal de Aveiro. Fez-lhe sofrer alguns reveses. Apercebi-me de como os marnotos vêm o mundo que eles constroem e essa visão deve estar dentro do ecomuseu. É por isso que eu digo que deve ser um ecomuseu dos marnotos, com os marnotos, para os marnotos e para quem for ao museu. Toda a faina é de uma riqueza técnica que, estudada ao pormenor delicia. Ficamos assombrados com algumas subtilezas da técnica. Tudo parece muito simples, as próprias alfaias são quase todas de madeira, mas depois, quando se começa a analisar ao pormenor, pergunta-se “como é que estes homens foram capazes de descobrir isto”. Temos de reconhecer nos marnotos tudo aquilo que eles são como artífices e tudo aquilo que eles são como homens que deram grandeza e esplendor a esta terra.

Na realização do seu estudo visitou outros locais de marinhas, desde a Figueira da Foz ao Algarve.

É verdade. E também outros museus do sal. Nas marinhas da Figueira da Foz, que estão aqui próximas, têm técnicas parecidas com as usadas em Aveiro e a terminologia é muito semelhante, mas estão a fazer inovações. Não quer dizer que aqui também não as tenham feito, porque as fizeram, mas todas acabaram mal. Há aculturações que não se podem fazer de maneira nenhuma.