Entre a realidade e a manipulação ou de como (certa) comunicação social peneira a informação

Direitos Humanos Nesta crónica gostaria de partilhar convosco um facto que talvez tenha passado despercebido em Portugal, mas que no Brasil acirrou (ainda) mais a oposição que alguns sectores fazem à acção do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.

Aliás, mais do que ao MST, esses sectores sociais, políticos e, sobretudo, económicos opõem-se à grande aspiração do povo rural no Brasil – a reforma agrária. Uma reforma tão adiada quanto necessária.

Mas vamos à notícia tal como ela foi veiculada pelo insuspeito jornal Folha de S. Paulo.

«Um grupo de 2.000 militantes da Via Campesina (movimento agrário latino-americano ao qual o MST tem íntimas ligações), na maioria mulheres, invadiu (…) e danificou instalações do horto florestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro (Estado do Rio Grande do Sul). A depredação durou meia hora. De acordo com a gerência da fábrica da Aracruz, em Guaíba, a produção está comprometida. Laboratórios foram destruídos e pesquisas de até 20 anos, sobre cruzamentos genéticos e seleção de espécies, foram perdidas. (…) O viveiro florestal da Aracruz tem capacidade para a produção de 30 milhões de mudas de eucaliptos. Pelo menos 5 milhões de plantas foram destruídas. O plantio que abastece a fábrica da Aracruz em Guaíba (ao lado de Barra do Ribeiro) ficou comprometido pela falta de mudas.

Os invasores chegaram ao local com taquaras (pedaços de bambu) e facas de mesa. Com as taquaras, romperam plásticos e telas das estufas, onde havia clonagens».

Quem leu a notícia, certamente terá ficado com a ideia de que uma atitude como a que foi descrita é absolutamente bárbara e inqualificável. Essa foi, justamente, a ideia com que terão ficado milhões de brasileiros que, no dia 8 de Março último, tiveram conhecimento da referida notícia através dos diversos meios de comunicação social. Os ânimos exaltaram-se e o ódio de certos sectores ao MST ficou inflamado.

Correndo o risco de ser polémico aos olhos de certos leitores, não me vou pronunciar sobre a atitude da-quelas mulheres, camponesas Sem-Terra, que, no Dia Internacional da Mulher, resolveram mostrar com uma fúria incontida (e tantas vezes amordaçada) a sua indignação contra as grandes indústrias agro-florestais. Quem me conhece sabe, perfeitamente, que advogo a resistência pacífica e a não-violência na resolução de conflitos. Porém, vou apresentar aqui o outro lado da história.

Em Janeiro deste ano, a mesma Aracruz (empresa que faz pesquisas na área da celulose e do papel, não reconhecidas oficialmente pelo Governo Brasileiro, responsável pelo aumento da área de deserto verde no Sudeste Brasileiro!) mobilizou helicópteros, bombas, armas, tratores e 120 agentes da Polícia Federal, para precederem à destruição de duas aldeias indígenas e expulsar 50 pessoas dos povos Tupiniquim e Guarani de sua terra tradicional, no município de Aracruz, estado do Espírito Santo. Os ameríndios, que já tinham os seus mananciais de água prejudicados pela acção da Aracruz, nem tiveram tempo para retirarem os seus pertences, viram as suas casas demolidas sem, para tal, terem recebido uma ordem de despejo.

Esta notícia não teve as manchetes dos jornais. Não ocupou audiências e comentadores como veio a acontecer com a acção das Mulheres camponesas no Dia 8 de Março.

Termino sem comentar muito mais. Cada um dos leitores formará a sua opinião sobre o assunto. Isso mesmo deve fazer a Comunicação – colocar factos para que tenhamos uma opinião sobre eles. Sou a favor da liberdade de imprensa, mas não posso deixar de exigir que, aliada a liberdade, venha também a ética.

Para que os meios de comunicação possam ter um papel efectivo, transparente, na transformação social que todos ansiamos.