Pergunto-me se escrever sobre o mesmo não vai agravar o desequilíbrio entre a realidade e a panaceia nacional, uma vez que os narcóticos mediáticos têm potencialidades inimagináveis. O futebol é importante, uma representação nacional condigna é motivadora, reconhecer-se numa bandeira e num hino é um alicerce estimável de identidade…
Mas desencadear “truques” que possam vir a encorajar a multiplicação do fenómeno, de consequências económicas imprevisíveis, a ponto de, na verdade, se criar mentalidade de “paragem” para futebol!… Pode ser grave! Já é, sob o ponto de vista educativo, grave! Pode ser injusto! Já é, de facto, injusto, porque muitos serão os novos “futebol-excluídos”. E, num tempo em que procuramos combater o fenómeno e dar vigor ao antídoto – a inclusão – não me parece razoável.
Há muitos horários e situações de trabalhos que não podem ser suspensos. Já viram as forças policiais a pararem, os bombeiros, os médicos, os enfermeiros?… E por que não hão-de parar os professores, os maquinistas de comboio, os carteiros, os condutores de passageiros e mercadorias?… Por que motivo não aproveitamos para “encerrar para balanço”, mesmo fora de prazo, já que essa é uma situação de horário mais flexível?…
Sabemos que as “massas populares” têm dificuldade em ser clarividentes, transformando facilmente o que é legítimo em arruaça alienadora e mesmo irracional; precisamos, por isso, de atitudes e sugestões que nos ajudem a viver os “acontecimentos nacionais” equilibradamente dimensionados, sem menosprezar as emoções, mas integrando-as na proporção ajustada.
Também gostaria de ver Portugal a brilhar no Campeonato do Mundo. Mas sem fanatismos, sem anunciada catástrofe, no caso de tal não acontecer, sem expectativas de novo futuro para o País, se tal for realidade. E convenhamos uma coisa: a Selecção de todos nós não é um grupo de míticos heróis, laboriosos por uma côdea, a quem tenhamos de nos render por tão esforçada tarefa. São profissionais bem pagos, incomparavelmente acima da generalidade da população portuguesa, com obrigação de fazerem render as suas qualidades e de manifestar o seu “amor à camisola”.
Esperamos, sinceramente, as alegrias das vitórias. Não nos deixaremos abater pelos revezes. Mas, acima de tudo, contamos que se faça a festa sem se esquecer o dever, sem parar o País, sem perder nos estádios – se acontecer – e no trabalho! Que o “acontecimento nacional” tenha impacto positivo no espírito dos portugueses, que os motive a fazerem mais e melhor pelo seu País!
