Especialistas do… Juízo

Em cima da linha Sempre que somos sujeitos a uma apreciação, e a todo o momento isso acontece, corremos o risco de ser apanhados nas malhas estreitas que recolhem todo o lixo e todo o peixe. Nós somos o que somos e somos quem somos num perfeito equilíbrio de valores, aptidões e feitios. Acontece que aquilo que é inesgotável fonte de enriquecimento, pela complementaridade resultante das diferenças, se converte numa torrente poluída pela acção de muitos dos que a si se julgam com uma medida e julgam os outros com outra.

Em tempo de Quaresma, somos convidados a fazer uma verdadeira autoavaliação. À luz da consciência individual, expressão inequívoca da verdade de Deus, assumimos a realidade daquilo que somos: nem mais nem menos. Por aqui se realiza a nossa humildade, ao reconhecermos a nossa verdade. Somos aquilo que somos: pecado e virtude.

Porém, este caminho não é fácil de percorrer, pois não se torna agradável para ninguém a aceitação da parte negativa da nossa vida. Daí, o culto da aparência, que nos leva a mostrar aos outros aquilo que não somos mas gostamos de aparentar: gostamos sempre de parecer melhores do que aquilo que somos, mostrando a nossa arrelia quando o negativo aparece, ainda que levemente expresso, na opinião dos outros. Isso faz parte do nosso próprio pecado. Por outro lado, pretendemos sempre que o nosso lado positivo seja visto, reconhecido e aumentado pelos outros, até porque daí resulta sempre algum “inchaço”, sempre apetecido. Quando a consideração que os outros tinham por nós se desmorona por qualquer imponderável, ficam marcas de azedume e de tédio, que procuramos remendar com novos “balões” de aparência, talvez, agora, mais sofisticados. E, se os nossos empreendimentos e actividades não recebem a “justa” homenagem, a palavra ingratidão sempre está na ponta da língua.

Mas há ainda outra faceta. Essa é a da opinião que os outros, na minha ausência, têm a meu respeito. E aqui, sabemo-lo nós por uma experiência tantas vezes amarga, é uma verdadeira confusão. Há gente interessada em passar por cima e, para o conseguir, é necessário abater ou pisar o de baixo; há gente que projecta nos outros muitos dos seus erros e defeitos, para que não lhes sejam apontados a si; há gente sem escrúpulos que levanta a poeira para poder fugir sem ser notada; há gente habilidosa para ludibriar, que consegue alcançar os seus intentos ocultos e mesquinhos sob a capa de sorrisos e simpatias; numa palavra: há especialistas de destruição dos outros pelos caminhos da suspeição e da mentira, da intriga e do talvez.

Desta maneira se constrói um tribunal por onde passam todos os dias mil casos para serem julgados por quem não tem que fazer e se diverte a julgar os outros, e, se não há matéria,… inventa-se, calunia-se, imagina-se, mas condena-se mesmo sem processo sumário que permita aos atingidos serem ouvidos. Depois, quando se descobre o enredo do processo, há que esconder e negar. Eis o processo dos detractores: tudo está sujeito ao seu implacável juízo. São especialistas no juízo de apreciação dos outros. Só eles fazem o juízo de valor certo e irrefutável. Assim julgam e assim se enganam, mas é a arte deles.

E porque todos somos afectados, para nos tranquilizarmos perante o juízo de tais assassinos, a Quaresma, se a tomamos a sério, faz-nos pensar profundamente, e conduz-nos, inevitavelmente, a uma conclusão verdadeira, seja na vertente da minha relação com o exterior, seja na vertente da relação do exterior para comigo. Essa conclusão pode resumir-se no seguinte: É verdade que eu não sou tão bom quanto pareço ou procuro parecer aos olhos dos outros, mas também não sou tão mau como tantos me julgam! Há em mim uma verdade que só eu e Deus conhecemos totalmente. E essa é a minha sorte grande: é esse Deus que me conhece até ao mais profundo de mim próprio, no pecado e na virtude, que me há-de julgar num tribunal de amor e de perdão. É isso que me salva e liberta!

Ai de mim se eu tivesse de ser julgado pelos outros: daí eu sairia sempre condenado!

Não quero ligar, não posso ligar a esses especialistas do juízo, porque só o juízo de Deus coloca todas as coisas no seu devido lugar. E porque não tenho medo desse Juízo Verdadeiro, também não tenho medo do juízo falso elaborado por um qualquer pecador como eu.