Morangada*

Educar… hoje Se lhe faltar assunto de conversa, diga o nome da série mais conhecida do momento. Verá que crianças, adolescentes e educadores todos têm uma opinião sobre a novela que narra o dia-a-dia de uma escola portuguesa.

Descobrirá que os mais novos se revêem nas personagens: as alcunhas passam da ficção para a realidade (já deve haver muitos “Crómios” neste país); sicrano fuma às escondidas dos pais; fulana tem muitas negativas, pelo que os únicos dois neurónios que os colegas lhe atribuem parecem mais do que justos; o hip-hop e os graffitis andam a par na ficção e na vida real; dizer-se nazi surte efeito, quando se quer provocar um adulto. Abordam-se assuntos interessantes: as “pastilhas da violação” (confundidas com ecstasy, numa conversa da vida real por um grupo de alunos) são uma droga perigosa; as relações familiares e escolares, amorosas e sexuais parecem ditar as leis da vida real.

Verá que a apreensão de uns contrasta com o entusiasmo de muitos: por um lado, os educadores, para quem os comportamentos das crianças e adolescentes são (fortemente) influenciados pelas personagens. Há quem esclareça e ponha o dedo na ferida (e os pontos nos is), alertando para o subtítulo “Geração Rebelde”. Alguns vêem mesmo a novela com os filhos, para comentarem e explicarem determinadas cenas. Por outro, o público-alvo que, com mais ou menos espírito crítico, segue com paixão as grandes emoções do ecrã. E talvez esteja aqui o busílis da questão.

É difícil explicar. Imagine que, de repente, encontrava a colher, o garfo e a faca, de que se serve diariamente, aumentados sete vezes. Não os poderia utilizar. Agora, transfira a ampliação do talher para um problema. Seria difícil solucionar situações corriqueiras numa escala sete vezes maior. Ora, quando surge uma dificuldade, o que fazem normalmente os adolescentes? Ampliam-na (sete vezes). E como, na maior parte das situações dessa novela, aos adultos não é dado o papel de moderador, as soluções encontradas pelos protagonistas são respostas para um problema que é sete vezes maior do que é na verdade, pelo que nem sempre são as mais lógicas ou as mais instrutivas. Mais: comportamentos tidos como sancionáveis no Regulamento Interno de qualquer escola, pública ou privada, são muitas vezes repreendidos com uma tolerância condescendente, que leva a concluir que se pode destruir a escola, roubar carros ou bater num professor, quase impunemente. Só um exemplo: quando um dos heróis da série andou a “grafitar” nas paredes, a Directora da escola, “muito tolerante e fixe”, “só o mandou limpar umas coisas” (citação e destaque de alguns alunos da vida real).

Não ficará surpreendido, ao saber que há personagens com mau carácter. Para estas só se colocam duas hipóteses: ou o são até ao fim das suas vidas fictícias, ou mudam no final da acção, numa lição moralista que tardava em chegar. Entretanto, as suas atitudes e respostas debochadas já entraram na vida real de crianças e adolescentes.

Verá que a novela funciona como um espaço de confronto do público consigo próprio. Mas lembre-se que esse efeito não é de agora. Todos conhecemos aquele que talvez tenha sido o primeiro jovem rebelde da história moderna, James Dean. E quem não se lembra da série Fame, que retratava o dia-a-dia de uma escola de dança, com alunos indisciplinados? Porém, ali não se era condescendente com a rebeldia e requeria-se muito trabalho diário. A diferença estava no trabalho e no esforço exigido. Sempre, do princípio ao fim da série. Hoje, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

* Morangada = morangos + trapalhada. Neologismo de Aurora Cerqueira. Morangos, fig., geração rebelde da série Morangos com Açúcar. Trapalhada, confusão.