O facto não é inédito. Já nos habituámos a ter poderosos sectores da comunicação social estrábicos, sobretudo que pretendem fazer de todos nós estrábicos mentais, persistindo em mudar as nossas mentalidades no sentido dos seus interesses. Trata-se da viagem de Bento XVI ao continente africano, dos seus pronunciamentos.
Para muitos, sobrou a imagem de um Papa “conservador”, que “entrou de pé esquerdo” na sua deslocação apostólica, abordando um tema controverso – o do preservativo. Como se a Igreja tivesse de andar a reboque de interesses comerciais ou de visões educativas minimalistas.
Claro que a questão não é simplista. Mas será sempre verdade que educar é um esforço concertado e doloroso, muito mais do que um sistema de “remendos” pragmáticos. Vale a pena recordar que: semear trigo é plano para um ano; plantar árvores é plano para dez anos; formar pessoas é plano para um futuro de horizontes ilimitados!
O que acontece é que o Santo Padre teve duas intervenções do mais elevado alcance cultural e social que quase iam sendo eclipsadas por esse “asteróide”. Ainda bem que nem todos têm olhares enviesados. E sempre apareceu na nossa praça política quem tivesse a coragem de sublinhar a palavra ousada do Pastor da Igreja.
Com o mesmo desassombro com que o saudoso Papa João Paulo II falou ao Presidente Fidel em Cuba, Bento XVI, ao Presidente Eduardo dos Santos, na despedida, afirmou, sem receios, a urgência de pôr cobro à corrupção e velar pelas necessidades fundamentais de uma imensidade de população carenciada de tudo.
A premente necessidade de pôr o exercício das responsabilidades políticas ao serviço do bem comum! E todos sabemos bem as razões: enquanto o poder se locupleta com uma escandalosa abundância, anda a Comunidade Internacional a rebuscar ajudas para um país rico. O recado foi perfeito!
Não menos corajoso foi o apoio manifestado à dignificação da Mulher! Em África, onde o substrato cultural secular as descrimina negativamente, reunir-se com as mulheres e estimulá-las a que assumam o reconhecimento e promoção da sua dignidade – sem feminismos enganadores, com ares de modernidade! -, reafirmar a igualdade da condição humana, homem e mulher, no respeito e integração das suas diversidades, é um contributo incalculável para uma transformação cultural necessária, em nome da própria justiça social. O tempo ajuizará do benefício deste gesto do Papa.
Afinal, onde brilham astros de primeira grandeza, qual o motivo para fazer de um “asteróide” o astro-rei?!… Estrabismo intencional, pela certa!
