“Não há verdadeiro júbilo senão naquilo em que pomos esforços para vencer”, afirmou Deolinda Serralheiro, na abertura do Ano Académico do ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro). A directora do ISCRA realçou na sua intervenção, perante professores e alunos e familiares que enchiam o Salão do Seminário, a importância o método, a ordem e a organização inerentes ao trabalho académico.
“A aquisição do saber, do fazer e, sobretudo, do ser, que é o resultado máximo de todo o ensino-aprendizagem-crescimento, exige alguns investimentos pedagógicos, por parte de alunos, alunas, professores e professoras, que nem sempre se nos afiguram fáceis”, disse Deolinda Serralheiro, apelando a toda a comunidade académica para o empenho na “transmutação” de situações académicas menos positivas. “Muitas vezes, e com tristeza o digo, verifica-se que um aluno ou uma aluna, apesar de, academicamente, ter transposto um, dois ou três anos de escolaridade, ao expressar-se, continua a empregar as mesmas categorias intelectuais que aprendeu na escola básica ou na catequese”, disse Deolinda Serralheiro. Ora, “um estudo sistematizado das ciências teológicas, religiosas e pastorais, como o que fazemos no ISCRA – prossegue a directora –, quer seja a nível médio, quer superior, exige dos nossos alunos e alunas, que são estudantes trabalhadores, em plena vida activa, um processo de ensino-aprendizagem complexo, metódico suficiente”.
Empurrão da formação teológica
Por seu turno, D. António Marcelino, que entregaria depois diplomas a duas dezenas de alunos, sublinhou que “o ISCRA é uma escola ao serviço da mensagem cristã no mundo”. A escola da diocese pode ser um palco privilegiado para o diálogo Igreja – Mundo, que vai estar no centro das atenções nos próximos anos pastorais. “A formação teológica, se enriquece a inteligência, molda também o coração. Leva-nos à conversão evangélica mais profunda, alarga os horizontes da nossa vida e saber, empurra-nos, irreversivelmente, para o serviço às pessoas e à sociedade”, disse o Bispo de Aveiro, acrescentando que o objectivo “mais largo e profundo é capacitar todos quantos aqui ensinam, aprendem e trabalham para uma vivência maior e mais comprometida da sua fé, no mundo em que vivem e na Igreja de que são membros”.
Números do ISCRA
250
alunos estão inscritos este ano nos vários cursos do ISCRA
7
alunos integram o Curso de Pós-Graduação em História das Religiões
12
alunos passaram em Setembro as provas de bacharelato (10) e de licenciatura em Ciências Religiosas (2). Foram examinados por professores vindos de Espanha, do instituto e da universidade de Comillas (Madrid), a que o ISCRA está ligado
5
dos 20 alunos que receberam diplomas na sessão de abertura são catequistas de Cortegaça (Ovar). A paróquia pagou-lhes a formação para que possam desempenhar melhor a sua missão em Cortegaça.
30
professores constituem o corpo docente desta escola
Oração de Sapiência por Manuel Alte da Veiga
Olhar o mundo como contínua surpresa
“Obediência é a disposição interna para perceber o valor. Não é submissão a ninguém, mas o reconhecimento de um valor a implementar”, defendeu Manuel Alte da Veiga, na oração de sapiência sobre “Obediência e autoridade”, na abertura do Ano Académico.
Escavando a raiz das palavras e fazendo a sua história no contexto das religiões, das primitivas ao budismo e cristianismo, o professor da Universidade do Minho e do ISCRA, descobriu novos sen-tidos para um conceito que “tem hoje predominantemente uma tonalidade desagradável e por vezes opressiva”.
“‘Obedecer’ formou-se do latim ‘oboedire’ – escutar, dar atenção, seguir a opinião”, que tem origens ainda mais remotas no indo-europeu ‘aw’ – captar, perceber, entender, pelo que Alte da Veiga lança a hipótese: “Não será o nosso ancestral espírito de caçador, sempre à escuta do que possa surgir?” E o professor conclui com “pontos fulcrais”, como estes: “A obediência é capacidade de olhar para o mundo como contínua surpresa (…). A obediência é esforço pertinaz por saber olhar o universo, abrindo espaço para a iluminação do maior campo possível, proporcionando o acto de escolha mais sábio e mais genuíno da liberdade e desejo humanos. (..) [A obediência] permite a paz e a har-monia de quem não se desestabiliza, de quem não se perde no emaranhado do mundo, mas antes se recolhe em si para melhor estar à espreita do que vale”.
