Eterna questão

Estamos às portas do início de um novo ano escolar, que, no nosso País, por muitas e variadas circunstâncias, se transmuta em novo ano educativo, uma vez que às escolas está cometida a maior responsabilidade nesta tarefa, pese embora a maioria da culpa se dever ao Estado, que não desarma de ser dono e senhor absoluto do futuro das gerações em formação.

Uma vez que a Governação não abre mão deste poder, é incapaz de reconhecer à sociedade civil a sua independência, às suas forças vivas a capacidade de organização e iniciativa, aos cidadãos a maior idade, para analisar, discernir e escolher, à família o direito de desenhar e preferir padrões de valores para os seus filhos. Um “sistema educativo” como o português vive a tensão entre um desejo incontido do “apuramento da raça” (a excelência) e a necessidade de mostrar intenções igualitárias (democraticidade).

A questão continuará a ser “eterna”, até que alguém tenha a coragem de fazer a revolução educativa. Os factores de mudança já ocorreram – e claramente. Mas foi errado o modo como foram assumidos. Passámos de uma escola para elites – e diferenciada apenas pelas mãos duras e bolsos magros dos pais cujos filhos iam parar às escolas técnicas, diferenciadas das mãos tenras e camisas engravatadas dos pais dos que tinham por “destino” o liceu – a uma escola para todos.

Todavia, nesses “todos” juntou-se uma amálgama de diferentes, com fatos de iguais. Acrescida, em poucos anos, de uma diversidade cultural e rácica, mesmo civilizacional, impossível de apagar. Aí surgiu a questão: quem gere um currículo, que garanta progressos a todos e que respeite a marcha de cada um?…

Nem currículos alternativos, nem gestão flexível de currículo, nem “truques” semelhantes podem resultar, se o “patrão” for anónimo e distante, em vez de uma presença próxima, capaz de perceber e decidir, dentro de limites razoáveis, percursos de sucesso. Professores e escolas, no antigo regime, não eram mais que executores de um política delineada em Lisboa. Mas… Agora temos a autonomia escolar, o projecto de escola… Tretas! Se até os manuais têm de se sujeitar a não ter TPC – a não ser no ano x -, se o número de alunos por turma é uniforme, seja numa periferia heterogénea, seja numa pequena localidade de harmonia cultural perfeita…

É claro que também não depende da sociedade civil haver dezenas de milhares de professores excedentários. Ao papel regulador do Estado caberia, provavelmente, aferir as necessidades do País, num contexto de iniciativa de livre escolha, apontar as balizas das necessidades…

Quer dizer que continuará a ser eterna a questão: um sistema centralizado não será capaz de resolver o caminho do sucesso nas diferenças; uma máquina habituada a um patrão que manda tudo dificilmente se adaptará à diversidade de propostas e opções!