Eternidade

Poço de Jacob – 59 Vivemos no tempo e no espaço. Estas categorias são humanas e materiais. Não existem em Deus, no Além. Sentimos o tempo passar no nosso rosto e nos cabelos que caem ou ficam brancos. O corpo vai cedendo ao desgaste e vão passando os momentos lindos da nossa vida, que recordamos, na saudade, e os tempos negros, que nos magoaram e marcaram com traumas, medos…

Passam o abraço amigo e o amigo que abraça. Passa o pai extremoso e a mãe carinhosa, o marido companheiro e o filho reverente. Passam as contendas e problemas na família e na vizinhança. Passam as preocupações. Passa o projecto que um dia foi futuro e agora é realidade que se recorda. Passa aquela viagem de sonho e aqueles momentos de amor e os de lágrimas bem choradas.

O verde fresco da Primavera e o fruto saboroso do Verão dão origem à folha que cai cansada e ao Inverno que a cobre de neve. Os bens envelhecem e precisam de restauro. Os monumentos vão perdendo seu sentido. As guerras destroem a beleza das coisas. Mas o ódio dos homens não consegue vencer o amor. Foi assim que passaram Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá. Mas também passaram Hitler e seus afins. No fundo, só duas realidades se mantêm para a eternidade: Tu e Deus. Juntos, unidos, isto é, o Amor. E o Amor dura para sempre.

Os pastorinhos de Fátima, como nós, não abarcavam o sentido da eternidade. Parecia-lhes incrível que o Céu ou o Inferno fossem para sempre e repetiam pelos montes: “Para sempre, para sempre, para sempre…” Daí o seu empenho generoso em não se pouparem para salvar as almas dos pobres pecadores. Não queriam que pessoas ficassem para sempre naquele inferno que viram no dia 13 de Julho de 1917. Madre Teresa dizia (leiam o livro maravilhoso: “Vem e ê a minha luz”): “Se uma só pessoa se salvar, tudo terá valido a pena”.

Costumamos dizer, inconscientemente: “Só morreu uma pessoa naquele acidente, vá lá!” Mas se aquela pessoa for um filho nosso, o pai ou a mãe, o mundo desaba em cima de nós. No tempo que passa, cada pessoa é um ser peregrino do absoluto, terra sagrada, homem para a eternidade, que pode ser feliz ou não. Vivemos em função disso: Ser eternos.

E todos os meios são importantes para nos levar a tomar consciência da nossa vocação de seres marcados para vivermos para sempre. Para isso, Deus dá a cada pessoa o tempo que lhe faz falta. A uns mais e a outros menos. Sempre com as oportunidades para nos salvarmos. E nos torna corresponsáveis da salvação dos outros. Só à luz da Eternidade é que as coisas têm valor. Na poesia “Meu canto de hoje”, diz Teresinha de Lisieux:

A minha vida é só um instante.

É só o dia que me escapa e foge.

Ó meu Deus, para amar-Te na terra

Só tenho o dia de hoje…

Quando o dia sem ocaso brilhar,

Então cantarei… o eterno hoje.

P.e Vitor Espadilha