Um safari no deserto

A árvore de Zaqueu «Terras áridas», como diz Isaías, nada propícias ao florescimento da vida. Contudo há quem nelas invista pelas riquezas do subsolo e até criando novos oásis. A riqueza do deserto está escondida (também devido muito à nossa ignorância) mas tem sido de extrema importância, sobretudo a sua riqueza a nível espiritual.

Nos textos do AT, o principal sentido é o geográfico. Mas a sua importância é a de ser o lugar da divindade – quer do «Deus único» quer dos Demónios (o deserto de planície monótona com pedras agudas evoca os maus espíritos, como se fosse um lugar de castigo e denotador do seu génio de destruição). Onde somos tentados a afastarmo-nos de Deus e onde também Deus se revela especialmente (Jesus teve «as tentações do deserto»).

«Deserto», aliás, etimologicamente, significa «fora da série»: provém do latim de (negação) + sero (tecer, juntar… donde a palavra «série»). O «desertor» é aquele que abandona o tecido social» a que pertencia. O que está em sintonia com o sentido de libertação… e solidão (ao contrário do que acontece com quem se sabe «in-serir»). No deserto, ficamos abandonados. É preciso coragem para aí exercitar a sua liberdade.

(Note-se que os templos tanto servem para actos sociais de culto como para criar um ambiente positivo de «deserto». Infelizmente, como os desertos famosos, cada vez mais são apenas atracção para turistas ou, quando muito são refúgio de ocasião para quem precisa de se encontrar com Deus, longe do palco habitual da nossa vida).

É um lugar onde se está só, totalmente aberto às forças espirituais: a qual delas iremos dar o nosso assentimento? «Que vamos ver ao deserto?»

Quando Jesus fez esta pergunta aos discípulos de João Baptista, eles poderiam ter respondido: fomos ver as terras áridas cobrirem-se de flores e exultarem com brados de alegria; fomos ver o descampado a cobrir-se de vida, onde os surdos entendem a voz do vento e os mudos proclamam as novas maravilhas de que os cegos já podem ser testemunhas; fomos ver, ouvir e sentir um profeta extraordinário que dizia de si nada valer, porque apenas é pregoeiro da chegada eminente da Vida que vence a desolação.

Só que João julgava que essa Vida apareceria como num trono glorioso de reis e como justiceira de toda a humanidade. «Serás mesmo tu, Aquele que há-de vir?»

Nem S. João Baptista, na intimidade com Deus no deserto, podia ver claramente a estranha novidade. Tão estranha, que o próprio Jesus, com as limitações próprias da nossa espécie humana, só lentamente, ao longo da vida, foi interiorizando a sua missão divina, modificando o próprio discurso e maneira de agir (teve que «sair da série» do seu ambiente religioso, em que Deus era visto mais como juiz severo do que companheiro das nossas aventuras e safaris…).

Talvez se explique deste modo a esquisita afirmação de que «o menor no reino dos Céus é maior do que João Baptista»: só depois de Jesus, é que podemos compreender o novo estilo da relação de Deus connosco, sem a imponência algo aterradora das antigas manifestações divinas – mas com muito mais responsabilidade pessoal. João foi o grande «mensageiro que prepara o caminho».

Com a vinda de Jesus, descobriu-se o sentido profundo do maravilhoso poema de Isaías – o profeta que mais expressivamente apresenta a dor e a alegria, a luta e a paz da terra inteira.

Jesus, porém, advertiu: «Bem-aventurado aquele que não encontrar em mim motivo de escândalo». Jesus é sinal de contradição (Mateus 10, 34), porque nos provoca, exigindo uma escolha. Não podemos chamar bem ao que é mal, nem vice-versa. Não podemos cruzar os braços quando a ajuda está ao nosso alcance. Mas como seres eminentemente sociais, é nosso dever saber discutir os diversos pontos de vista e avaliar o fruto das árvores.

Mas precisamos de tanta «paciência»! Que o diga S. Tiago! (2.ª leitura). Paciência que espera, perdoa, mas vai sempre corrigindo (e eventualmente punindo), mas interessada mais em alimentar a erva boa do que em destruir sem jeito a erva má.

Afinal, o Evangelho até nos dá um bom plano para um safari no deserto…

Manuel Alte da Veiga