Eterno louco de Cristo

LIVRO Num livro publicado em Espanha, na viragem do Milénio, sobre as 50 personalidades mais influentes das História da Humanidade, São Paulo surgia em primeiro lugar. E Jesus Cristo… em segundo! O autor justificava-se com o facto de S. Paulo ter organizado o cristianismo, de ter percebido que a religião do Crucificado não teria futuro se não se virasse em direcção ao pagãos. E isso mudou a História.

Dizer que S. Paulo é mais influente do que Jesus é quase como dizer que a Lua é mais importante do que o Sol… porque aparece de noite! Paulo só faz sentido, porque Cristo lhe apareceu. E brilhou no início do cristianismo, porque deixou que a luz de Cristo brilhasse nele. É o próprio que diz: “Em último lugar, apareceu-me também a mim, como a um aborto. É que eu sou o menor dos Apóstolos, nem sou digno de ser chamado Apóstolo”. E, mais tarde, diria: “Não sou eu que vivo, é Cristo quem vive em mim”.

A expressão da primeira Carta aos Coríntios, “como a um aborto”, (1 Cor 15,8) deu origem ao título desta obra de Alain Decaux, membro da Academia Francesa. “O Aborto de Deus” lê-se como um romance. Mas é um livro de História. O autor leu os Actos dos Apóstolos e as Cartas de Paulo e visitou os locais à procura de vestígios do Apóstolo: «“Encontrei-o” nos locais onde viveu, onde passou, onde se deteve, onde pregou a palavra de Cristo aos judeus, onde evangelizou os pagãos e onde escreveu as cartas que se tornaram fontes essenciais do cristianismo. “Vi-o” ser vítima do ódio, atirado para a prisão, várias vezes flagelado e sobreviver a uma lapidação. Conheci Éfeso antes de Tarso, Salónica antes de Jerusalém, Roma antes de Corinto. Desta heresia cronológica vi emergir uma personagem que desafia qualquer comparação. Durante vinte anos hesitei em lhe consagrar este livro. Terá sido para evitar o confronto com este tema formidável (…)? A figura é imensa. Um louco de Cristo: apostulus furiosus. Perturba, por causa da sua fé ardente».

Apesar de algumas lacunas relativas ao pensamento e à teologia de Paulo (o autor apoia-se mais no livro dos Actos dos Apóstolos, de Lucas, do que nas Cartas do próprio Apóstolo), esta obra lê-se com imen-so prazer. O leitor sentirá como o autor: “Paulo nunca deixará de cal-correar os caminhos do nosso espírito. Vêmo-lo, eterno louco de Deus, proclamando por toda a parte, através da Ásia e da Europa, Aquele que reconciliará os homens com os ho-mens e cada um consigo mesmo”.

Hoje, 29 de Junho, além de dia de S. Pedro, é dia de S. Paulo.

J.P.F.